Mineração avança na Amazônia, pressiona terras quilombolas e já desmata 6 mil hectares em três meses

Relatórios apontam expansão recente da atividade, aumento de pedidos de exploração e impactos em áreas protegidas e comunidades tradicionais

O avanço da mineração na Amazônia tem ampliado a pressão sobre territórios tradicionais e áreas ambientais, impulsionado pela demanda por minerais críticos utilizados em setores como energia, tecnologia e indústria.

Levantamento do Observatório da Transição Energética, em parceria com o Inesc e o PoEMAS, mostra que, entre 2021 e 2025, a Agência Nacional de Mineração (ANM) recebeu 2.563 requerimentos para exploração de minerais críticos na região — o equivalente a 35% de todos os pedidos registrados desde 1953.

Os dados indicam também a incidência desses projetos próximos a comunidades tradicionais. Ao todo, 31 territórios quilombolas estão na rota de exploração, somando cerca de 653 mil hectares em estados como Pará, Amapá, Rondônia, Maranhão e Tocantins. Foram identificados 128 requerimentos em áreas que atravessam esses territórios ou estão em um raio de até 10 quilômetros, sendo parte já em operação.

Especialistas apontam que a proximidade das atividades minerárias pode comprometer o modo de vida dessas populações, especialmente em relação ao uso do território e à preservação ambiental. Outro ponto levantado é a necessidade de consulta prévia às comunidades, conforme previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Desmatamento ligado à mineração

Além da expansão dos pedidos, dados recentes indicam impactos diretos no desmatamento. Segundo a plataforma Amazon Mining Watch, cerca de 6 mil hectares foram desmatados na Floresta Amazônica entre outubro e dezembro de 2025 em decorrência da atividade mineral.

O Brasil concentrou aproximadamente um terço dessas áreas, com cerca de 2 mil hectares desmatados no período. Também foram registrados avanços em países como Peru, Guiana, Venezuela, Suriname, Bolívia e Equador.

De acordo com a Amazon Conservation, responsável pela iniciativa, há registros de mineração em áreas onde não havia histórico da atividade, além do retorno do garimpo em regiões anteriormente desmobilizadas.

“A mineração ilegal de ouro continua a se espalhar pela Amazônia, ameaçando a biodiversidade, os territórios indígenas e os ecossistemas críticos”, afirmou Andrés Santana, gerente da organização.

Debate sobre regras e governança

O tema também foi discutido em encontro realizado em Belém (PA), que reuniu representantes do setor mineral para debater o papel da Amazônia na nova economia global.

Durante o evento, o diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), Rinaldo Mancin, destacou que o Brasil possui reservas estratégicas para a transição energética e que o debate deve considerar as condições em que a atividade será desenvolvida.

“A questão não é se a Amazônia vai participar da nova economia, e sim em quais condições vai participar”, afirmou.

Mancin também apontou o garimpo ilegal como um dos principais desafios para o setor.

“O garimpo ilegal destrói o meio ambiente e contamina a imagem da mineração regulada”, disse.

Entre os pontos discutidos estão a necessidade de aprimorar processos de licenciamento, ampliar o uso de tecnologias de menor impacto e fortalecer mecanismos de governança. A agenda ambiental, social e de governança (ESG) também foi destacada como exigência crescente para acesso a mercados e financiamentos internacionais.

“A Amazônia pode e deve conciliar crescimento econômico com preservação”, concluiu.

Com Informações do Sindicato das Indústrias Minerais do Estado do Pará (Simineral) 

Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus