EXCLUSIVA: Livro revela cotidiano e redes familiares de pessoas escravizadas no sul do Espírito Santo entre 1831 e 1888

Pesquisa baseada em registros do século XIX reconstrói vínculos de parentesco e estratégias de sobrevivência entre pessoas escravizadas no sul do Espírito Santo

Em meio ao esforço recente da historiografia brasileira de deslocar o olhar sobre a escravidão para além da violência institucional e das estatísticas, uma nova pesquisa publicada em formato de e-book amplia essa perspectiva ao investigar como vínculos familiares estruturaram estratégias de sobrevivência entre pessoas escravizadas no século XIX. A obra “Retratos da Escravidão em Itapemirim-ES: uma análise das famílias escravizadas entre 1831 e 1888” (Praia, 2026), da escritora e historiadora Laryssa da Silva Machado, reúne anos de investigação em arquivos raros do sul do Espírito Santo e propõe uma leitura mais complexa da vida cotidiana sob o regime escravista.

Em entrevista ao programa Minuto a Minuto da Jovem Pan News Manaus, a autora explicou que o trabalho nasceu ainda na graduação e foi ganhando corpo a partir do acesso a fontes pouco exploradas, como registros paroquiais e inventários de bens.

É um trabalho que é fruto da minha pesquisa de mestrado. Graças à editora Praia, aqui do Espírito Santo, a gente conseguiu publicar em formato de e-book. É uma pesquisa sobre as famílias escravizadas no sul do Espírito Santo”, afirmou.

O livro integra um conjunto de pesquisas acadêmicas que têm buscado reposicionar a análise da escravidão no Brasil a partir da vida social dos cativos. Em vez de retratar apenas a condição de violência e subjugação, a autora enfatiza a existência de redes de parentesco, afetos e organização comunitária mesmo sob um sistema de coerção extrema.

A gente cresceu numa cultura que mostra o escravizado como alguém sem vida social, sem vínculos, sem relações. Mas quando você analisa os documentos, percebe que eles tinham outra vida, muito diferente do que a cultura nos contou”, disse Laryssa.

A pesquisa se apoia principalmente em registros de batismo, óbito e inventários da comarca de Itapemirim, que permitiram reconstruir laços familiares frequentemente invisibilizados pela documentação oficial.

Segundo a autora, esses registros revelam uma dimensão pouco discutida da escravidão: a existência de famílias estruturadas, ainda que atravessadas pela instabilidade e pela violência do sistema.

Nos acostumamos a falar sobre os cativos como seres sem vontade. Porém, ao olhar os documentos, vemos que cada escravizado era um ser humano que, na medida do possível, estabelecia estratégias sociais. E as famílias são uma dessas estratégias”, explicou.

Um dos pontos mais sensíveis do trabalho é justamente a identificação de núcleos familiares inteiros em registros do século XIX, algo que contrasta com a narrativa tradicional sobre a desagregação total dessas relações.

A maior família que encontrei tinha sete filhos. Em muitos casos, conseguimos identificar casais e redes de parentesco nos inventários. Isso mostra que essas pessoas não estavam isoladas, elas criavam vínculos apesar de todas as condições”, destacou.

A autora também relatou as dificuldades para localizar o acervo documental, que não estava organizado nem catalogado, o que atrasou o início efetivo da pesquisa.

Encontrar os inventários foi uma verdadeira odisseia. Fui a cartórios, recebi negativas, até descobrir que os documentos estavam no Arquivo Público, mas ainda não catalogados. Aí começou, de fato, a pesquisa”, contou.

Além da dimensão histórica, o trabalho também dialoga com debates contemporâneos sobre memória, desigualdade e permanências do passado escravista na sociedade brasileira. Para a pesquisadora, o estudo da escravidão não se encerra no século XIX, mas continua como ferramenta de compreensão do presente.

A história não está só no passado. O que a gente pesquisa tem ligação direta com o presente e pode ajudar a transformar o futuro. O passado pode ser usado como ferramenta para mudanças sociais”, afirmou.

Professora da rede municipal de Marataízes e doutoranda em História na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Laryssa integra atualmente o laboratório História, Poder e Linguagens e também atua em instituições de pesquisa regional.

A obra, disponível em formato digital e gratuito, faz parte de uma iniciativa editorial voltada à publicação de pesquisas de autoria feminina e já pode ser acessada online pela plataforma da editora responsável.

Mais do que um resgate documental, Retratos da Escravidão em Itapemirim-ES propõe uma reinterpretação da experiência escrava a partir de suas relações humanas, deslocando o foco da ausência para a permanência das estruturas impostas para as estratégias de existência.

Foto: Reprodução Redes Sociais
Por Ismael Oliveira – Redação Jovem Pan News Manaus