A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que amplia as exigências relacionadas à saúde mental no ambiente corporativo, já começa a mobilizar empresas em todo o país. A nova diretriz torna obrigatória a gestão dos riscos psicossociais dentro das organizações, exigindo ações preventivas voltadas ao bem-estar emocional dos colaboradores.
Em meio ao aumento dos afastamentos por transtornos mentais e ao avanço das discussões sobre burnout, ansiedade e depressão no trabalho, a especialista em Recursos Humanos, Dra. Mene Vianna, explicou em entrevista ao programa A voz do Amazonas, da Jovem Pan News Manaus, como as empresas precisarão se adaptar à nova realidade.
“Muita atenção, porque agora a NR-1 vai obrigar as empresas a olharem para isso. A gente vem de um momento muito cheio de questões relacionadas à saúde mental, como ansiedade, depressão e burnout. E agora o governo diz: as empresas também precisam ajudar nesse processo, porque parte disso acontece dentro dos ambientes corporativos”, afirmou.
Segundo ela, a saúde mental deixa de ser vista apenas como benefício corporativo e passa a integrar oficialmente as obrigações legais das empresas.
“Agora a gente começa a olhar isso não mais como um benefício, mas como uma obrigatoriedade. E a NR-1 vem justamente fazer isso”, destacou.
Sinais de adoecimento emocional exigem atenção
Durante a entrevista, Mene Vianna alertou para os principais sinais de adoecimento emocional que líderes e profissionais de RH devem observar nas equipes.
“São três pontos importantes: o primeiro é o comportamento. A baixa produtividade, irritabilidade e até esquecimentos frequentes. Depois vêm os sinais físicos, como cansaço, insônia e alterações constantes. E, por último, as falas dos colaboradores: ‘eu não aguento mais’, ‘essa rotina está pesada’, ‘não tenho vontade de trabalhar’. São sinais que muitas vezes passam despercebidos”, explicou.
A especialista destacou que o burnout representa o estágio mais grave desse processo.
“O burnout já é o extremo do sintoma, é o estresse em nível crônico. O estresse do dia a dia é normal, ele só não pode ser constante. Quando deixa de ser pontual e passa a acontecer todos os dias, em intensidade elevada, aí começa o caminho para o burnout”, afirmou.
Ela também ressaltou que o problema atinge profissionais de todas as idades e cargos, inclusive lideranças.
“Hoje a gente não fala só de colaboradores. Tem muitos líderes com burnout também. Eu vivi isso na pele como executiva de RH e foi justamente essa experiência que me levou a trabalhar ajudando empresas e pessoas nesse processo”, contou.
Pandemia e excesso de conexão agravaram cenário
Outro ponto abordado foi o impacto da pandemia e da hiperconectividade no aumento dos transtornos emocionais no ambiente de trabalho.
“A pandemia intensificou muito esse cenário. Tivemos aumento dos casos de ansiedade e depressão, principalmente no pós-pandemia. E seguimos num ritmo acelerado, com excesso de demandas e sem limite de horário. Hoje as pessoas recebem mensagens de trabalho às 11 da noite e continuam conectadas o tempo todo”, disse.
Segundo ela, o excesso de informações e a dificuldade de desconexão também contribuem para o desgaste emocional.
“Quando você chega em casa, precisa se reconectar com sua família, desligar do trabalho, se desconectar do celular antes de dormir. Isso reduz o impacto da ansiedade gerada por esse mundo extremamente tecnológico e acelerado”, orientou.
Liderança e cultura organizacional são fundamentais
A especialista reforçou que as empresas precisarão investir não apenas em processos, mas também em mudanças culturais para atender às novas exigências da NR-1.
“Ninguém pede demissão da empresa. As pessoas pedem demissão da liderança. Por isso, precisamos preparar os líderes para criar ambientes mais saudáveis e seguros, onde as pessoas possam se expressar e errar sem medo”, afirmou.
Segundo ela, o discurso corporativo precisa estar alinhado com a prática diária.
“Não adianta falar sobre saúde mental e, na prática, manter ambientes tóxicos. Não adianta colocar ginástica laboral na sexta-feira e de segunda a quinta viver um ambiente adoecido”, destacou.
Polo Industrial também enfrenta desafios emocionais
Ao comentar a realidade do Polo Industrial de Manaus, Mene Vianna afirmou que o setor industrial também enfrenta impactos importantes relacionados à saúde mental dos trabalhadores.
“Na indústria existe um processo mais rígido, de linha de produção, mas também existe uma preocupação muito forte com segurança do trabalho. Agora começamos a olhar também para o emocional. Um operador que não está bem emocionalmente pode gerar prejuízo para ele, para os colegas e para a produção”, explicou.
Ela destacou que o desafio está em transformar o tema em parte da cultura organizacional.
“Mapear a saúde mental e colocar isso dentro da cultura da empresa exige consciência, clima e cultura. Se a empresa trabalhar esses três pilares, consegue avançar em qualquer segmento”, disse.
Inteligência artificial e transformação do trabalho
A especialista também comentou os impactos da inteligência artificial no ambiente corporativo e os desafios emocionais provocados pelas transformações tecnológicas.
“A IA é mais uma ferramenta dentro desse mundo veloz e ela vai acelerar ainda mais as mudanças. Alguns cargos deixarão de existir e outros vão surgir. O mais importante é não entrar em pânico, mas aprender a se adaptar e usar essas ferramentas”, afirmou.
Segundo ela, o cenário exige atualização constante dos profissionais.
“A gente se reinventou quando surgiu a internet, o Excel, o WhatsApp. Agora vamos precisar nos reinventar novamente com a inteligência artificial”, completou.
Saúde mental como estratégia organizacional
Ao final da entrevista, Mene Vianna destacou que investir em saúde mental não representa apenas uma obrigação legal, mas também uma estratégia de produtividade e sustentabilidade para as empresas.
“O mundo está mais rápido, mais tecnológico e emocionalmente mais exigente. As empresas vão precisar aprender a organizar ambientes mais saudáveis, porque gente saudável é mais produtiva”, concluiu.
A nova NR-1 deve entrar definitivamente em vigor após o período de adaptação estabelecido pelo governo federal, e a expectativa é que empresas de todos os setores intensifiquem ações voltadas à prevenção dos riscos psicossociais e à promoção da saúde mental no ambiente de trabalho.
Foto: Reprodução
Por Ismael Oliveira – Redação Jovem Pan News Manaus






