Outra seca histórica à vista? El Niño pode acelerar a vazante dos rios no Amazonas, alerta SGB

Pesquisadores apontam risco de queda rápida dos níveis dos rios no segundo semestre, enquanto estudo revela que cheias e secas estão cada vez mais intensas na Amazônia

O possível avanço do fenômeno El Niño voltou a acender o alerta no Amazonas. Durante a apresentação do 3º Alerta de Cheias do Amazonas 2026, realizada nesta sexta-feira, 29, em Manaus, especialistas apontaram que o estado pode enfrentar uma nova seca severa caso o fenômeno climático se consolide nos próximos meses.

Apesar de os rios monitorados pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) estarem abaixo das cotas de inundação severa e apresentarem sinais de estabilização, pesquisadores alertam que o cenário pode mudar rapidamente no segundo semestre.

Segundo o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Renato Senna, existe o risco de uma queda acelerada dos níveis dos rios, agravando o período de estiagem em diversas regiões do estado.

“O início do evento no segundo semestre pode trazer uma queda dos níveis dos rios de forma bastante rápida e acentuada. Esse é o principal problema que estamos observando”, afirmou.

O El Niño é um fenômeno climático provocado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico na região próxima à Linha do Equador. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica e reduz a formação de nuvens, o que normalmente resulta em menos chuvas sobre a Amazônia.

De acordo com Renato Senna, ainda não existe confirmação oficial da formação do fenômeno. No entanto, pesquisadores monitoram uma extensa massa de água aquecida abaixo da superfície do Pacífico, considerada um dos principais sinais para o desenvolvimento do El Niño.

Algumas áreas do oceano já apresentam temperaturas entre 5°C e 6°C acima da média histórica. Quando esse aquecimento alcança a superfície, a tendência é de redução das chuvas e aumento das temperaturas na região amazônica. Além da estiagem, os especialistas alertam para períodos de calor intenso, forte insolação e ocorrência de chuvas rápidas acompanhadas por ventos fortes.

A preocupação é reforçada por previsões climáticas internacionais. O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC/NOAA) estima 82% de probabilidade de formação do El Niño entre maio e julho de 2026. A projeção aponta ainda 96% de chance de o fenômeno permanecer ativo até o início de 2027.

Modelos meteorológicos analisados por instituições especializadas indicam que o fenômeno poderá atingir intensidade moderada ou forte. Apesar disso, os pesquisadores ressaltam que previsões climáticas feitas com muitos meses de antecedência ainda podem sofrer alterações.

Cheias e secas cada vez mais extremas

O alerta sobre uma possível nova seca ocorre em meio à divulgação de um estudo internacional que aponta mudanças significativas no comportamento dos rios amazônicos.

Publicada na revista científica Environmental Research Letters, a pesquisa concluiu que o ciclo hidrológico do rio Amazonas passou a apresentar eventos mais extremos a partir de 2005, com cheias e secas mais intensas do que as registradas nas décadas anteriores.

O levantamento analisou dados coletados entre 1970 e 2023 e reuniu pesquisadores do Brasil, França e Reino Unido. Foram utilizados registros históricos do nível e da vazão dos rios, imagens de satélite e modelos computacionais para avaliar o comportamento da água ao longo de mais de 1,1 mil quilômetros do rio Amazonas.

Em Manaus, os pesquisadores identificaram um aumento de 18% na diferença entre os níveis máximos e mínimos do rio Amazonas em comparação com o século passado. O dado indica que as enchentes e estiagens estão se tornando mais severas.

Em Parintins, as cheias de 2009 e 2021 foram classificadas entre as maiores já registradas. Segundo o estudo, o volume de água que passou pelas várzeas durante esses eventos foi comparável ao fluxo de alguns dos maiores rios do mundo.

Já em Tefé, a seca histórica de 2023 foi associada ao aumento da temperatura da água do lago Tefé, que chegou a atingir 41°C. O episódio provocou a morte de mais de 200 botos-vermelhos e tucuxis e chamou a atenção de pesquisadores do mundo inteiro.

O estudo também identificou redução significativa das áreas alagadas durante períodos de estiagem. Em algumas regiões da Amazônia Central, lagos perderam até 80% da área coberta por água durante a seca extrema de 2023.

Diante desse cenário, pesquisadores defendem a ampliação do monitoramento climático e a preservação das áreas de várzea, consideradas fundamentais para reduzir os impactos das enchentes, proteger as margens dos rios e preservar a biodiversidade amazônica.

Enquanto a confirmação do El Niño ainda depende da evolução das condições climáticas nos próximos meses, especialistas alertam que o Amazonas precisa se preparar para eventos cada vez mais extremos, tanto durante os períodos de cheia quanto de estiagem.

 

Com Informações do G1 Amazonas e Portal Amazônia

Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus