Tecnologia criada na Amazônia para tratar água durante secas extremas começa a ser aplicada no Equador

Projeto desenvolvido pelo Instituto Mamirauá foi apresentado a comunidades e instituições da Amazônia equatoriana e poderá ser utilizado para ampliar o acesso à água potável em áreas rurais.

O projeto “Água de Beber”, desenvolvido pelo Instituto Mamirauá para tratamento emergencial de água durante períodos de seca extrema na Amazônia, foi apresentado no Equador e poderá servir de base para ações voltadas à ampliação do acesso à água potável em comunidades ribeirinhas do país.

A iniciativa foi apresentada entre os dias 27 e 28 de maio durante a Oficina de Capacitação de Multiplicadores em Água e Saneamento na Amazônia Rural, realizada na cidade de Coca e na comunidade Guiyero. O evento reuniu pesquisadores, lideranças comunitárias, representantes de universidades, organizações sociais e órgãos ligados à gestão da água na Amazônia equatoriana.

Durante as atividades, pesquisadores do Instituto Mamirauá e da Universidade San Francisco de Quito demonstraram o funcionamento do kit de Tratamento Emergencial de Água, desenvolvido para situações de crise hídrica. Ao final das oficinas, 80 kits foram distribuídos aos participantes.

Além da demonstração prática, os participantes receberam orientações baseadas no Guia Prático para o Tratamento Emergencial de Água Barrenta para Comunidades Ribeirinhas da Amazônia, disponibilizado em versão traduzida para o espanhol. Também foram apresentados métodos de desinfecção solar da água e técnicas para captação e tratamento de água da chuva.

A implementação da metodologia no Equador surgiu após o interesse de instituições locais em fortalecer o acesso à água potável em comunidades ribeirinhas. Segundo os organizadores, a região apresenta características semelhantes às encontradas no Médio Solimões, no Amazonas, incluindo a presença de águas barrentas e a vulnerabilidade aos impactos das mudanças climáticas.

O pesquisador João Paulo Borges, líder do Grupo de Pesquisa, Inovação e Desenvolvimento de Tecnologias Sustentáveis da Amazônia, destacou que o intercâmbio permite compartilhar experiências entre diferentes territórios amazônicos e fortalecer parcerias voltadas à gestão da água.

A ação integra iniciativas da Aliança Águas Amazônicas, rede formada por instituições e pesquisadores que atuam na conservação ambiental e no desenvolvimento de soluções comunitárias para abastecimento e saneamento na região amazônica. O Instituto Mamirauá participa da articulação por meio de projetos ligados à gestão hídrica, tecnologias sociais e monitoramento socioambiental.

A expectativa é que os participantes das oficinas atuem como multiplicadores das técnicas aprendidas, levando o conhecimento para outras comunidades da Amazônia equatoriana e ampliando o alcance de soluções de baixo custo para acesso à água segura.

Projeto surgiu após seca histórica na Amazônia

O projeto “Água de Beber” foi criado pelo Instituto Mamirauá após a seca extrema registrada na região do Médio Solimões entre 2023 e 2024. A iniciativa foi desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa em Inovação, Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis e pelo Programa de Qualidade de Vida da instituição.

A tecnologia reúne um guia prático e um kit de tratamento emergencial capaz de ser utilizado pelas próprias famílias. O sistema adapta métodos utilizados em estações convencionais de tratamento de água para a realidade das comunidades ribeirinhas.

Desde sua criação, o projeto vem sendo aplicado em ações de preparação e resposta às estiagens, atendendo milhares de famílias em áreas como as Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã e a Floresta Nacional de Tefé.

O kit possui formato compacto e reúne os insumos necessários para o tratamento da água em situações emergenciais. De acordo com o Instituto Mamirauá, o material pode atender uma família durante vários meses, dependendo do consumo.

Parcerias

A iniciativa conta com apoio da Cáritas Suíça, Servizio Protezione Internazionale (SPI), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e União Europeia, por meio de programas de ajuda humanitária.

Também participaram do desenvolvimento e implementação do projeto o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), as prefeituras de Tefé e Uarini, além de instituições parceiras da Amazônia equatoriana, entre elas a Universidade San Francisco de Quito, a Escuela Superior Politécnica de Chimborazo (ESPOCH), a Pontificia Universidad Católica del Ecuador (PUCE), a Alianza Ceibo, a Amazon Frontlines, a Dirección de Salud de Orellana (DSO) e o Ministério do Ambiente, Água e Transição Ecológica do Equador (MAATE).

O Instituto Mamirauá é uma organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e atua em projetos de pesquisa, manejo de recursos naturais e desenvolvimento social na Amazônia.

 

Com informações da Assesoria do Instituto Mamirauá*

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus