Cientista do INPA em Manaus é o primeiro brasileiro a ganhar a mais importante medalha mundial de pesca

Adalberto Luis Val, pesquisador há 44 anos na Amazônia, receberá a Medalha Le Cren em julho na Inglaterra; premiação nunca havia saído do eixo anglófono

Um pesquisador radicado em Manaus vai receber, em julho, a mais importante distinção internacional das ciências aquáticas — e ele é o primeiro brasileiro a conquistar esse reconhecimento em mais de uma década de existência do prêmio.

O biólogo Adalberto Luis Val, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências para a Região Norte, foi anunciado como agraciado com a Le Cren Medal, distinção concedida pela Fisheries Society of the British Isles (FSBI) a pesquisadores com contribuição destacada para a biologia, a conservação e a compreensão pública dos peixes no mundo.

A cerimônia de premiação ocorre no dia 30 de julho, na Universidade de Southampton, na Inglaterra. Val é o primeiro brasileiro a receber a medalha, criada em 2010 em homenagem a David Le Cren, biólogo britânico considerado um dos nomes clássicos da ecologia de peixes.

O feito vai além da conquista individual. A escolha de Adalberto Val marca um feito histórico: é a primeira vez que a medalha é concedida a um pesquisador de fora do eixo anglófono. Em outras palavras, pela primeira vez em 16 anos, a honraria saiu do mundo de língua inglesa, e foi parar na Amazônia.

Quatro décadas estudando peixes em ambientes extremos

Natural de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, Adalberto Val chegou a Manaus em 1981, junto com sua esposa, a pesquisadora Vera Maria Fonseca de Almeida-Val, para realizar seus estudos de mestrado e doutorado no INPA, na área de Biologia de Água Doce e Pesca Interior. Em 1982, tornou-se servidor do instituto, onde consolidou sua carreira ao longo de 44 anos. Com Vera, fundou o Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), referência nos estudos sobre fisiologia, adaptação e evolução de peixes amazônicos.

Sua pesquisa tem urgência ambiental direta. Seus estudos mostram que muitas espécies já vivem próximas ao limite térmico de sobrevivência, o que acende um alerta para os impactos ambientais, sociais e econômicos das mudanças climáticas na região.

O que a Jovem Pan News Manaus ouviu do pesquisador

A notícia do prêmio internacional não surpreendeu quem já teve a oportunidade de ouvir Adalberto Val falar sobre a Amazônia. Recentemente, eu (Tatiana Sobreira) e a equipe da Jovem Pan News Manaus estivemos no INPA para uma entrevista exclusiva com o pesquisador, que recebeu nossa equipe com generosidade e clareza sobre um tema que ele conhece como poucos: os impactos do El Niño sobre a vida aquática da maior bacia hidrográfica do mundo. O material nasceu da previsão e preocupação dos pesquisadores sobre o El Niño para 2026

Na conversa, Val falou com precisão e preocupação sobre as perdas registradas em 2023 e 2024, durante a seca extrema que castigou o Amazonas. Os peixes morreram em massa. Os botos, símbolo da Amazônia, foram encontrados mortos às centenas nos rios e lagos da região. Segundo ele, os peixes normalmente resistem a temperaturas de até 26 graus. Mas o aquecimento anormal das águas naquele período ultrapassou todos os limites. Os botos, ainda mais vulneráveis, sucumbiram ao calor de mais de 40 graus registrados nas águas superficiais. Na prática, como o próprio pesquisador descreveu sem eufemismo: eles cozinharam vivos nos rios.

O alerta para 2026 é grave. Adalberto Val afirmou que este ano deve trazer uma nova seca severa, com potencial de afetar novamente as populações aquáticas da Amazônia brasileira. E o problema não é só a seca em si, é o tempo de recuperação. Espécies que demoram anos para atingir a maturidade reprodutiva não conseguem recompor seus estoques em um único ciclo de cheia. A baixa precipitação de chuvas, que influencia diretamente as cheias e secas dos rios amazônicos, preocupa o pesquisador porque compromete não apenas a biodiversidade, mas a base alimentar e cultural de milhões de pessoas que vivem às margens dos rios.

Para o próprio Val, o trabalho vai além da biologia. Estudar os peixes amazônicos é compreender como a vida responde aos limites impostos pelo ambiente, e essas espécies ajudam a entender não apenas a história evolutiva da Amazônia, mas também os riscos que as mudanças climáticas representam para a biodiversidade e para as populações humanas que dependem desses ecossistemas.

Val acrescenta ainda que, a resiliência da Amazônia surpreende, tanto em sua composição, quanto na sua regeneração, ante as ações e interferências humanas e do clima.

A elevação das temperaturas pode comprometer a disponibilidade de peixes e a base da alimentação de milhões de pessoas na região. Secas intensas tornam os ambientes mais propícios a incêndios florestais que afetam os ambientes aquáticos.

Uma carreira de números impressionantes

Autor de mais de 280 artigos científicos, 22 livros e 78 capítulos de livros, Adalberto Luis Val acumula mais de 10 mil citações acadêmicas e já recebeu importantes reconhecimentos nacionais e internacionais, como o Prêmio Fundação Bunge, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e o Award of Excellence da American Fisheries Society. Ao longo de sua carreira, exerceu cargos estratégicos, incluindo a direção do INPA entre 2006 e 2014 e a Diretoria de Relações Internacionais da CAPES entre 2015 e 2016.

O que é a Medalha Le Cren

A Le Cren Medal é concedida pela Fisheries Society of the British Isles a pesquisadores e equipes que fizeram contribuições duradouras para o avanço, a aplicação e a circulação social do conhecimento sobre peixes. Ao longo dos anos, a medalha reconheceu nomes como Bob Wootton, Bob McDowall, o consórcio FishBase, Isabelle M. Côté, Peter A. Henderson e Oliver Crimmen.

Adalberto Val entra para esse seleto grupo levando com ele a Amazônia, seus peixes, seus botos e um aviso que o mundo precisa ouvir: o rio mais poderoso do planeta está sob pressão — e a ciência feita em Manaus é quem tem as respostas.

 

Fontes: Entrevista exclusiva com Adalberto Luis Val concedida à Jovem Pan News Manaus, INPA, Manaus — 2026 | A Crítica,  Academia Brasileira de Ciências (ABC), Science Panel for the Amazon (SPA) | Fisheries Society of the British Isles (FSBI) — fsbi.org.br

Fotos: Priscylla Cury
Edição: Tatiana Sobreira, da redação Jovem Pan News Vitória & Jovem Pan News Manaus