A presença de jogadores investigados ou acusados de estupro e agressão sexual na Copa do Mundo de 2026 tem gerado debates entre torcedores e especialistas. Pelo menos cinco atletas que integram seleções participantes do torneio enfrentam ou enfrentaram investigações relacionadas a crimes sexuais antes do início da competição.
Entre eles estão dois jogadores do Japão, adversário do Brasil nesta segunda-feira, além de nomes importantes de seleções como Marrocos, Gana e Cabo Verde.
Por que a Fifa permite que esses jogadores disputem o Mundial?
A Fifa não possui uma norma geral que impeça a convocação ou inscrição de atletas apenas pelo fato de serem investigados ou responderem a processos judiciais.
Na prática, a entidade adota o entendimento de que cabe às autoridades de cada país conduzirem os processos criminais, enquanto a responsabilidade pela convocação dos atletas é das federações nacionais.
Dessa forma, caso não exista suspensão imposta pela própria Fifa, sanção esportiva ou medida judicial que restrinja a atividade profissional do jogador, ele permanece apto a atuar normalmente em competições oficiais.
Ryan Mendes: investigação segue em andamento
Capitão da seleção de Cabo Verde, o atacante Ryan Mendes é alvo de uma investigação conduzida pela polícia da Nova Zelândia após uma brasileira denunciá-lo por estupro.
O caso teria ocorrido em março, durante a estadia da delegação cabo-verdiana para amistosos na Oceania. As autoridades recolheram imagens do sistema de segurança do hotel e aguardam a conclusão de exames periciais para decidir se apresentarão denúncia formal à Justiça.
Segundo a legislação neozelandesa, condenações por crimes de violência sexual podem resultar em penas de até 20 anos de prisão, dependendo da gravidade do caso.
Sobre a situação, a Fifa divulgou nota oficial.
“A Fifa trata com a máxima seriedade qualquer denúncia de conduta imprópria e dispõe de um processo claro para que qualquer pessoa envolvida com o futebol possa comunicar um incidente.
Como regra geral, os órgãos judiciais independentes da Fifa não comentam sobre denúncias que possam ou não ter recebido, nem confirmam ou negam a existência de investigações em andamento sobre supostos casos. Caso decidam tornar alguma informação pública, isso será feito no momento e da forma que considerarem apropriados.
A Fifa está em contato com as autoridades da Nova Zelândia. Neste momento, não faremos comentários adicionais”.
Japão tem dois atletas envolvidos em casos distintos
Junya Ito
Um dos destaques da seleção japonesa, Junya Ito foi acusado por duas mulheres de abuso sexual em 2024. As denúncias apontavam que os fatos teriam ocorrido em um hotel na cidade de Osaka.
Na época, o jogador chegou a ser cortado da Copa da Ásia. Posteriormente, apresentou uma denúncia contra as acusadoras, alegando que os relatos eram falsos.
Meses depois, o Ministério Público japonês decidiu não prosseguir nem contra o atleta nem contra as mulheres, justificando falta de provas para sustentar as acusações.
Kaishu Sano
Também em 2024, o volante Kaishu Sano foi preso em Tóquio após ser acusado de agressão sexual contra uma mulher em um hotel da capital japonesa.
O caso foi encerrado sem condenação, permitindo que o jogador retomasse a carreira e voltasse a ser convocado para a seleção nacional.
Ao retornar ao grupo japonês, Sano fez um pronunciamento público.
“Peço sinceras desculpas por ter causado transtornos e preocupações a tantas pessoas por causa das minhas ações. Daqui para frente, pretendo continuar demonstrando, por meio das minhas atitudes, palavras e tudo o que eu puder fazer, meu comprometimento, além de contribuir para a sociedade também fora dos gramados”, declarou Kaishu Sano em 2025.
O técnico Hajime Moriyasu também justificou a decisão de reintegrar o atleta.
“Tenho acompanhado sua trajetória o tempo todo e, após conversar pessoalmente com ele, senti fortemente que ele está verdadeiramente arrependido. Perguntei a mim mesmo se deveríamos simplesmente excluir alguém da sociedade ou do mundo do futebol por ter cometido um erro. Decidi que seria melhor, como uma família, oferecer a ele uma oportunidade de recomeçar”, afirmou Hajime Moriyasu, técnico do Japão desde 2018.
Hakimi aguarda julgamento na França
Principal referência técnica da seleção marroquina, Achraf Hakimi responderá a julgamento na Justiça francesa após ser acusado de estupro por uma mulher de 24 anos.
A acusação remonta a fevereiro de 2023. Segundo relatos divulgados pela imprensa internacional, a mulher afirmou ter conhecido o atleta pelas redes sociais e alegou que sofreu violência sexual durante um encontro em sua residência.
O lateral do Paris Saint-Germain nega as acusações e teve negado um recurso que buscava encerrar o caso antes do julgamento.
Em manifestação pública feita neste ano, Hakimi voltou a afirmar inocência.
“Hoje em dia, uma acusação de estupro é suficiente para justificar um julgamento, mesmo que eu a negue e tudo prove que é falsa. Isso é tão injusto para os inocentes quanto para as verdadeiras vítimas. Aguardo com serenidade este julgamento, que permitirá que a verdade venha à tona publicamente”, escreveu nas redes sociais.
Thomas Partey enfrenta sete acusações
O meio-campista Thomas Partey, da seleção de Gana, responde atualmente a sete acusações relacionadas a estupro e agressão sexual no Reino Unido.
A situação teve impacto direto na participação do atleta na Copa do Mundo. O jogador não pôde atuar na estreia ganesa porque teve o visto negado pelas autoridades canadenses.
O governo de Gana criticou a decisão e classificou a medida como “arbitrária e extremamente injusta”, argumentando que ela se baseia em acusações ainda não comprovadas.
As investigações envolvem denúncias feitas por diferentes mulheres e fatos que teriam ocorrido entre 2021 e 2025. O atleta se declarou inocente perante a Justiça inglesa.
Embora tenha sido preso neste ano, Partey obteve liberdade condicional mediante pagamento de fiança. Entre as condições impostas estão a proibição de contato com as denunciantes e a obrigação de informar mudanças de endereço ou viagens internacionais.
Debate segue em evidência
Os casos reacendem a discussão sobre os critérios adotados por entidades esportivas para a participação de atletas envolvidos em investigações criminais.
Enquanto defensores da presunção de inocência argumentam que a exclusão só deve ocorrer após condenação ou sanção formal, críticos apontam a necessidade de protocolos mais rígidos para situações envolvendo denúncias de violência sexual em grandes competições internacionais.
Por Victoria Medeiros, da Redação da Jovem Pan News Manaus
Foto: IMAGN IMAGES via Reuters/Brett Davis






