Segurança pública ganha espaço nas campanhas para 2026; veja propostas dos presidenciáveis

Propostas dos candidatos incluem mudanças na legislação, integração das forças de segurança, medidas contra organizações criminosas e até prisão na Amazônia

A segurança pública ganhou protagonismo nos discursos dos principais candidatos à Presidência da República para as eleições de 2026. Durante as convenções partidárias, nomes como Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) apresentaram diferentes estratégias para enfrentar a violência e o avanço das organizações criminosas.

O tema está entre as principais preocupações do eleitorado. Pesquisa Nexus/BTG divulgada no fim de julho apontou que 30% dos entrevistados citaram segurança pública, violência ou criminalidade entre os assuntos mais importantes para o próximo pleito.

O índice ficou acima de saúde pública, mencionada por 25% dos entrevistados, e corrupção, com 22%.

As propostas apresentadas pelos candidatos seguem linhas distintas. Enquanto alguns defendem o endurecimento das leis, ampliação do encarceramento e maior repressão às organizações criminosas, outros destacam investimentos sociais, educação e integração das forças de segurança como instrumentos para reduzir os índices de violência.

Entre as ideias apresentadas estão mudanças na legislação penal, redução da maioridade penal, classificação de facções como organizações terroristas, construção de unidades prisionais em áreas remotas e ampliação de políticas de prevenção.

Lula aposta em educação e integração das forças

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido a educação e a melhoria das condições socioeconômicas como parte da estratégia de combate à criminalidade.

Durante a convenção realizada em 2 de agosto, o petista comparou os custos para o Estado de manter um estudante e um preso e argumentou que ampliar oportunidades educacionais pode contribuir para reduzir a violência.

“Educação não é gasto. Educação é investimento. Um preso em São Paulo custa R$ 35 mil por ano. Um estudante de um Instituto Federal custa R$ 16 mil por ano. Numa cadeia de segurança máxima custa R$ 40 mil por mês um preso. Um estudante da Universidade Federal fazendo um curso de engenharia espacial, que é o único curso de engenharia espacial do Brasil, custa R$ 20 mil por mês. É mais barato investir em educação do que gastar dinheiro com prisão. E quem pode ir para a prisão é esse jovem, se a gente não lhe der oportunidade”, afirmou.

Outra frente defendida pelo governo é a PEC da Segurança Pública, que ainda aguarda votação no Senado. A proposta prevê maior integração entre os órgãos responsáveis pela segurança e fortalece a articulação das forças em âmbito nacional.

Um dos principais pontos do texto é a atuação integrada dos órgãos de segurança em torno da Polícia Federal, além da inclusão do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) na Constituição.

Flávio Bolsonaro defende endurecimento das leis

Flávio Bolsonaro adotou um discurso de maior rigor na legislação penal durante sua convenção, realizada em 25 de julho.

O senador defendeu alterações na Constituição para ampliar a punição de crimes violentos. Entre as propostas mencionadas estão a redução da maioridade penal e medidas específicas para crimes sexuais e violência contra a mulher.

Apesar de a segurança pública estar entre os temas centrais de sua campanha, Flávio não mencionou diretamente o crime organizado e as facções criminosas durante o evento.

“Precisamos mudar a Constituição para fazer com que um estuprador de 14 anos de idade seja responsabilizado e preso como adulto. Para fazer com que quem agride uma mulher fique muito mais tempo preso. Para que quem estupra uma criança seja submetido à castração química e nunca mais possa violentar ninguém”, afirmou em sua convenção realizada em 25 de julho.

Caiado usa experiência em Goiás como referência

O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado apresenta os resultados obtidos durante sua gestão na área de segurança pública como uma das principais bases de sua plataforma eleitoral.

Segundo o Atlas da Violência, Goiás aparece como o sétimo estado brasileiro com menor taxa de homicídios, com 18,4 mortes para cada 100 mil habitantes.

Caiado atribui parte desse desempenho ao endurecimento das medidas adotadas no estado. Durante a convenção realizada em 26 de julho, ele mencionou medidas como o fim das visitas íntimas para presos condenados por envolvimento com organizações criminosas, restrições a reuniões sigilosas com advogados e monitoramento permanente da população carcerária.

O candidato defendeu que medidas adotadas em Goiás também possam ser aplicadas em âmbito nacional.

Caiado ainda fez críticas à política de segurança do governo do PT e relacionou a atuação do partido ao cenário do crime organizado no país.

“As tropas da minha segurança de Goiás, quando eu dizia a eles que bandido não se cria, eles tinham certeza que tinham o aval do governador como braço forte para coibir e acabar com a corrupção. Por que o atual governo não acabou? Porque são complacentes. Quando eu recebi Goiás, 1.073 jovens estavam condenados por crime na área da droga. Entreguei pro Daniel Vilela com 198”, disse.

Zema propõe presídio na Amazônia

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, apresentou durante a convenção realizada em 27 de julho uma proposta de segurança baseada principalmente no encarceramento e no combate direto às organizações criminosas.

Entre as ideias defendidas pelo candidato está a classificação de facções criminosas como grupos terroristas. Zema também citou como referência o modelo adotado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, conhecido pela política de repressão ao crime no país.

A proposta mais específica apresentada pelo candidato prevê a construção de um presídio de alta segurança em uma região remota da Amazônia para receber líderes de organizações criminosas.

“Vou enquadrar todas as organizações e facções criminosas como terroristas. Vamos construir um super presídio, de preferência num lugar remoto, no meio da Amazônia, para onde todos esses líderes vão ser encaminhados e vão mofar por, pelo menos, 25 anos”, disse.

A classificação de grupos como PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho como organizações terroristas também esteve no centro das discussões sobre a Lei Antifacção no Congresso Nacional.

Parlamentares de direita defendem a mudança de classificação, enquanto setores da esquerda argumentam que a medida poderia abrir espaço para consequências internacionais.

Renan Santos defende ofensiva contra facções

O presidente nacional do Missão, Renan Santos, oficializou sua candidatura ao Palácio do Planalto antes dos demais concorrentes, mas realizou a convenção partidária em 1º de agosto.

Com um discurso de maior repressão às organizações criminosas, ele afirmou que pretende adotar uma política de enfrentamento direto às facções.

Renan também declarou que estaria sendo ameaçado pelo Comando Vermelho e pelo PCC. Segundo ele, caso não seja atacado até a eleição, “não sobrará um” depois que assumir a Presidência.

Uma das metas apresentadas pelo candidato é reduzir drasticamente o número de homicídios no país. O objetivo declarado é chegar a menos de 10 mil mortes por ano.

Em 2025, foram registradas 40.775 mortes violentas intencionais.

“Eu quero buscar 4 mil homicídios em um ano, no máximo, mas [a meta de até] 10 mil nós conseguimos. Isso é uma revolução num país como o nosso. Se eu não entregar no final do meu mandato, meu próprio partido não vai deixar eu concorrer nunca mais.”

Outra proposta apresentada por Renan é a chamada política de “desfavelização”, que prevê a recuperação de territórios dominados por organizações criminosas.

Segundo o candidato, a redução da influência das facções permitiria transformar milhares de áreas de ocupação em bairros integrados à estrutura urbana. Em seu plano de governo, a recuperação desses territórios aparece associada ao combate ao crime organizado.

Propostas seguem linhas diferentes

Embora os candidatos tenham colocado a segurança pública entre os principais temas de suas campanhas, as estratégias apresentadas são distintas.

Lula destaca educação, prevenção e integração entre as forças de segurança. Flávio Bolsonaro defende mudanças na legislação e maior rigor nas punições. Caiado utiliza a experiência de Goiás como referência e propõe ampliar medidas adotadas no estado.

Zema concentra sua proposta no encarceramento e na classificação das facções como organizações terroristas, enquanto Renan Santos defende uma política de repressão mais ampla contra o crime organizado e metas específicas para redução dos homicídios.

A diversidade de propostas ocorre em um cenário no qual segurança, violência e criminalidade aparecem entre as principais preocupações dos eleitores para as eleições de 2026.

 

 

Por Victoria Medeiros, da Redação da Jovem Pan News Manaus

Foto: Reprodução / TSE