A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta quinta-feira (10), em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU), uma operação para investigar suspeitas de desvio de recursos públicos relacionados ao financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A operação mira 29 pessoas e cumpre 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. As medidas foram autorizadas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável pelo inquérito que apura o possível uso de emendas parlamentares em benefício de empresas ligadas à produção do longa-metragem.
Entre os alvos estão o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e a empresária Karina Gama, dona da produtora Go Up Entertainment, responsável pelas gravações de “Dark Horse”. Também foram alvo Wemerson Marinho da Gama, ex-marido de Karina, e Raphael Augusto Azevedo, ex-chefe de gabinete de Frias.
Durante as buscas, sete armas pertencentes a Mário Frias e um Porsche foram apreendidos, segundo informações divulgadas pela imprensa. A apreensão faz parte das diligências da operação e, por si só, não significa que a posse das armas seja irregular.
PF investiga emendas destinadas a instituto
A investigação apura repasses de emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama. Mário Frias destinou R$ 2 milhões em emendas ao instituto em 2024. Os recursos foram pagos em fevereiro e outubro de 2025.
Segundo uma das frentes da apuração, parlamentares informaram ao STF que deputados aliados de Jair Bolsonaro destinaram, ao todo, R$ 2,6 milhões em emendas Pix ao instituto em 2024. Os investigadores apuram se parte desses recursos públicos acabou direcionada a empresas relacionadas à produção de “Dark Horse”.
Mário Frias nega irregularidades. Karina Gama também afirma que os recursos foram aplicados corretamente e, ao comentar a investigação, declarou que não tem informações para delatar.
De acordo com a PF, as investigações apontam suspeitas de que agentes públicos e privados direcionaram recursos para empresas subcontratadas sem comprovação da efetiva prestação dos serviços. A polícia afirma que as tentativas de ocultar os supostos desvios teriam ocorrido até julho deste ano.
Levantamentos financeiros também identificaram movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas investigadas. A PF apura possíveis crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.
Contrato de até R$ 157 milhões também é investigado
A investigação no STF passou a reunir informações de um inquérito que já estava em andamento na Polícia Civil de São Paulo. Em agosto, Flávio Dino autorizou a Polícia Federal a acessar dados dessa apuração e levou para o Supremo a investigação relacionada ao filme.
A apuração paulista envolve a Go Up Entertainment e o Instituto Conhecer Brasil. Em junho, policiais civis cumpriram mandados em endereços ligados à produtora, ao instituto, a imóveis atribuídos a Karina Gama e a uma secretaria da Prefeitura de São Paulo.
Um dos pontos investigados é um contrato firmado entre a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e o ICB para implantação de 5 mil pontos de Wi-Fi gratuito em comunidades da capital paulista.
Inicialmente, o contrato era de R$ 108 milhões e, segundo as informações da investigação, chegou a R$ 157 milhões após aditivos. A Polícia Civil abriu inquérito para apurar suspeitas de fraude na licitação e na execução do contrato e se recursos públicos chegaram à equipe responsável pelo filme.
Karina Gama também mantém empresas e entidades que receberam emendas de vereadores e deputados para realização de eventos e projetos relacionados à literatura evangélica. Os vínculos financeiros dessas organizações estão entre os pontos analisados pelos investigadores.
Caso “Dark Horse” tem duas investigações no STF
Atualmente, existem duas frentes distintas no STF relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”. A operação desta quinta-feira está ligada ao uso de emendas parlamentares e tem Flávio Dino como relator.
A segunda investigação está sob relatoria do ministro André Mendonça e surgiu como desdobramento do caso Banco Master. Essa apuração envolve conversas atribuídas ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Segundo mensagens que integram a investigação, Flávio Bolsonaro teria solicitado a Vorcaro R$ 130 milhões para o projeto do filme, dos quais R$ 61 milhões teriam sido repassados. O senador não é alvo da operação realizada nesta quinta-feira.
A investigação conduzida sob relatoria de Mendonça busca esclarecer se recursos ligados ao Banco Master foram encaminhados à produção por meio de um fundo sediado nos Estados Unidos, além da natureza da relação entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro. Também é apurada a suspeita de que parte dos valores tenha sido utilizada para despesas no exterior de Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos.
Delação investiga caminho do dinheiro
Nesta semana, André Mendonça homologou a colaboração premiada do operador do mercado financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Ele é proprietário da Entre Investimentos e Participações, empresa apontada na investigação como participante de transferências entre Daniel Vorcaro e a produção de “Dark Horse”.
De acordo com informações apresentadas à Procuradoria-Geral da República (PGR), Freixo Júnior confirmou ter realizado, ao longo do ano passado, sete transferências para o fundo Havengate, a pedido de Vorcaro.
As operações somaram US$ 12,3 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 69 milhões na cotação da época. A investigação busca determinar a origem, o destino e a finalidade desses recursos e se existe relação com o financiamento do filme.
Caso foi citado em decisão sobre comando da PF
A investigação sobre “Dark Horse” também apareceu na disputa recente envolvendo o comando da Polícia Federal. Na quarta-feira (9), ao determinar o retorno de Andrei Rodrigues ao cargo de diretor-geral da PF, Flávio Dino mencionou o impacto que o afastamento poderia provocar nas investigações em andamento, incluindo a apuração relacionada ao filme.
Com as buscas desta quinta-feira, a PF pretende reunir documentos, registros financeiros e outros elementos para verificar o caminho dos recursos investigados e a eventual participação de agentes públicos e privados. As suspeitas ainda estão sob investigação e não representam condenação dos envolvidos.
Com informações da Folha de São Paulo e O Globo
Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus






