A violência contra profissionais da imprensa alcançou números alarmantes em todo o mundo. Ao menos 189 jornalistas foram assassinados entre 2024 e 2025, segundo levantamento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), divulgado nesta segunda-feira (2).
O total representa o maior número de mortes em um intervalo de dois anos desde 2014 e 2015, quando 215 profissionais foram assassinados. Além da quantidade de vítimas, o documento destaca a dificuldade de responsabilizar os envolvidos: 86% dos crimes registrados desde 2006 continuam sem solução ou sem informações conclusivas das autoridades.
Conflitos armados concentram a maioria das mortes
Do total de assassinatos registrados no último biênio, 127 ocorreram em países que enfrentam conflitos armados. O número corresponde a 67% das vítimas e representa um aumento de 24% em relação ao período de 2022 e 2023.
O relatório sobre a Segurança de Jornalistas e o Perigo da Impunidade também detalha as circunstâncias de parte desses crimes:
- 50 profissionais morreram em ataques com drones;
- 36 jornalistas foram vítimas de ofensivas contra instalações de veículos de comunicação ou locais utilizados como abrigo;
- Em pelo menos 15 casos, existem indícios de que os profissionais foram atingidos mesmo utilizando coletes com a identificação “imprensa” ou veículos reconhecidos como pertencentes a jornalistas.
A Palestina aparece como o território com o maior número de vítimas, contabilizando 62 jornalistas assassinados. A quantidade representa aproximadamente um terço de todas as mortes registradas mundialmente no período. O território sofre ataques de forças israelenses desde 2023.
Assassinatos também ocorrem fora das zonas de guerra
Embora os conflitos armados concentrem a maior parte das ocorrências, a violência contra jornalistas também preocupa em países que não estão envolvidos em guerras.
Nessas regiões, foram contabilizadas 62 mortes em 2024 e 2025, o menor número registrado em 18 anos.
Entre as circunstâncias dos assassinatos estão:
- 17 jornalistas mortos nos próprios locais de trabalho;
- 33 profissionais assassinados dentro de veículos;
- 20 vítimas mortas em suas residências.
O levantamento também identificou homicídios durante manifestações e ataques terroristas.
Cobertura política e investigação criminal aumentam os riscos
O trabalho jornalístico em áreas sensíveis também aparece entre os fatores associados às mortes. Segundo a Unesco, 104 profissionais foram assassinados enquanto cobriam conflitos armados.
Outros 38 perderam a vida durante a produção de reportagens relacionadas à política, enquanto 22 foram mortos ao investigar ou noticiar atividades criminosas. Ocorrências ligadas à corrupção também aparecem no levantamento.
“Isso mostra que fazer reportagens sobre alguns assuntos pode ser tão perigoso quanto reportar em uma zona de guerra”, afirmou Sylvie Couldray, diretora de Liberdade de Expressão e Desenvolvimento da Mídia e Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.
Mulheres representam 7% das vítimas
O estudo também apresenta dados sobre o perfil dos profissionais assassinados. Entre as vítimas, cinco tinham idades entre 15 e 24 anos, enquanto outras 20 estavam na faixa dos 25 aos 29 anos.
As mulheres corresponderam a 7% dos assassinatos, totalizando 14 vítimas. Esse é o menor percentual registrado desde o biênio 2012-2013.
Do total de jornalistas mulheres mortas, 13 foram assassinadas em países envolvidos em conflitos armados.
Brasil registra morte de jornalista no Pará
No cenário brasileiro, a Unesco contabilizou um assassinato de jornalista durante o período analisado.
A vítima foi Luís Augusto Carneiro da Costa, conhecido como Luisinho Costa, morto em maio de 2025 dentro do estúdio da Rádio Guarany, em Abaetetuba, no nordeste do Pará.
De acordo com a Polícia Civil paraense, a investigação foi concluída e encaminhada à Justiça. Quatro pessoas foram indiciadas pelo crime.
O Brasil também comunicou à Unesco a implementação do Protocolo Nacional para a Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores Sociais. A iniciativa foi lançada em abril de 2025 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e passou a integrar o repositório de mecanismos nacionais de segurança da organização.
Impunidade chega a 86% em todo o mundo
Um dos pontos mais preocupantes do levantamento é a baixa responsabilização dos autores de crimes contra jornalistas.
Desde 2006, foram assassinados 1.641 profissionais da imprensa em diferentes países. Desse total, somente 223 casos tiveram resolução pelo sistema judiciário, o equivalente a 14%.
Outros 1.013 assassinatos, que representam 66% das ocorrências, continuam sem solução. Em 321 casos, correspondentes a 20%, a Unesco não recebeu informações das autoridades responsáveis.
Considerando tanto os crimes não solucionados quanto aqueles sem respostas oficiais, o índice de impunidade chegou a 86% em 2025.
A taxa representa um aumento de um ponto percentual em comparação com 2024 e interrompe uma tendência de queda que vinha sendo observada desde 2012.
“O relatório é uma ferramenta importante para monitorar as tendências globais, além de nos lembrar que proteger jornalistas e acabar com a impunidade são essenciais para salvaguardar a liberdade de expressão e o direito do público à informação”, declarou Mariya Gabriel, diretora de Comunicação e Informação da Unesco.
Outras formas de violência contra a imprensa
Além dos assassinatos, o documento chama atenção para diferentes ameaças enfrentadas por jornalistas no exercício da profissão.
Entre as ocorrências destacadas estão sequestros, desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias, ataques virtuais motivados por questões de gênero e restrições à circulação de profissionais da imprensa.
Para reunir os dados, a Unesco consultou autoridades de 78 países que registraram episódios de violência contra jornalistas. Desse grupo, 38 governos encaminharam informações sobre políticas de proteção e medidas adotadas para combater crimes contra profissionais da comunicação.
O levantamento reforça a preocupação internacional com a segurança dos jornalistas e a necessidade de medidas que garantam o exercício da profissão, a liberdade de expressão e o acesso da população à informação.
Por Victoria Medeiros, da Redação da Jovem Pan News Manaus
Foto: Ahmad Hasaballah/Getty Images






