A coluna de hoje é um convite a leitura. Puxe a cadeira, um copo de chá ou uma bebida leve, refrescante e navegue nas boas lembranças.
Quero dedicar cada linha para as mulheres que marcaram nossos dias.
A incansável “dona Maria Izalinda”, amada mãe que nos criou enfrentando inúmeras dificuldades e desafios, como uma cabocla típica do interior da Amazônia brasileira.
Há mulheres que combatem, diariamente, diferentes lutas para se manterem e preservar o sentido da existência no Norte do Brasil.
Mulheres que pesquisam a Amazônia com microscópios, mapas e décadas de dedicação científica. Outras a estudam com os pés rachados da lama da vazante, com as mãos marcadas pelo sumu da mandioca, pela pesca e pela força de criar filhos às margens dos rios. Todas elas, de alguma forma, carregam o mesmo dom ancestral: o de manter viva a floresta que alimenta o mundo.
Neste Dia das Mães, minha homenagem vai para as mulheres da Amazônia brasileira que transformaram o cuidado e ciência em resistência e legado. Mulheres que compreendem que a floresta não é apenas um território. Ela é uma extensão da família amazônida plural. Uma mãe antiga, abundante e silenciosa, que ainda insiste em nutrir quem habita nela, apesar das feridas abertas pelo tempo e pela exploração desenfreada.
A Amazônia também é sustentada por mulheres invisíveis.
Pelas ribeirinhas que conhecem o ritmo das águas antes mesmo das previsões oficiais. Pelas indígenas que preservam línguas, sementes e remédios naturais. Pelas mães que ensinam os filhos a respeitar o rio, o peixe, a árvore e o tempo da natureza. Pelas pesquisadoras que desafiaram distâncias, preconceitos e a solidão das expedições científicas para mostrar ao planeta que a floresta é viva, inteligente e indispensável.
Entre esses nomes, impossível não reverenciar a trajetória da pesquisadora Maria Teresa Fernandez Piedade, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Há quase cinco décadas, ela dedica a vida a estudar os ecossistemas alagáveis da região amazônica e o funcionamento das águas que sustentam não apenas o Norte do Brasil, mas boa parte do equilíbrio climático do planeta. Agora, em 2026, recebeu o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, uma das maiores honrarias da ciência nacional.
Ao falar sobre as áreas úmidas da Amazônia, Maria Teresa lembra que os rios amazônicos não alimentam apenas comunidades ribeirinhas, mas também os ciclos de chuva que irrigam outras regiões brasileiras. Para ela, preservar esses sistemas é preservar a própria continuidade da vida.
Mas a ciência amazônica feminina não nasce apenas nos laboratórios. Ela floresce também nos encontros humanos, na escuta e na delicadeza de compreender a floresta para além dos números.
No INPA, nomes como Vera Val ajudaram a construir um legado científico voltado aos peixes amazônicos e à biologia aquática, enquanto Maria Inês Higuchi se tornou referência ao estudar a relação entre seres humanos, cidades e floresta amazônica. Já Cecilia Veronica Nunez abriu caminhos importantes na área da farmacognosia, buscando nas plantas amazônicas respostas para a ciência e para a medicina.
Mais recentemente, pesquisadoras como Camila Ribas passaram a ganhar reconhecimento nacional pelos estudos sobre biodiversidade e evolução das espécies amazônicas, mostrando que a floresta ainda guarda respostas que a humanidade sequer começou a compreender.
Outra voz importante é a da pesquisadora Flávia Costa, premiada pelos estudos que revelam como antigos povos amazônicos modificaram a floresta de maneira positiva muito antes da colonização portuguesa. Suas pesquisas ajudam a desmontar a falsa ideia de uma Amazônia “intocada”, mostrando que floresta e humanidade sempre coexistiram em equilíbrio quando havia respeito pela natureza.
No Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, um dos mais importantes centros científicos da Amazônia brasileira, mulheres também ajudaram a redefinir o olhar sobre a região. Pesquisadoras da antropologia, arqueologia, botânica e etnociência passaram décadas registrando culturas indígenas, tradições orais e conhecimentos ancestrais ameaçados pelo avanço do tempo e da destruição ambiental. O próprio Museu Goeldi é reconhecido internacionalmente como um dos principais centros de pesquisa sobre os sistemas naturais e socioculturais da Amazônia.
E quando penso nisso, lembro também de Dona Saracá.
A mulher que se tornou símbolo da força ancestral amazônica através da lendária “formiga de fogo”, tema de um material especial publicado no meu blogspot. Dona Saracá representa tantas mulheres anônimas da floresta: guardiãs de histórias, saberes populares e conhecimentos que jamais caberiam apenas em livros acadêmicos. Mulheres que compreendem a floresta como entidade viva e sagrada. As indigenas da AMARN, Associação das Mulheres do Alto Rio Negro, que mesmo saindo de suas terras construíram em Manaus uma organização que compatilhaos saberes, línguas e repeito acestral.
São mães que permanecem mesmo após a partida.
Porque uma mãe amazônida nunca vai embora por completo. Ela continua no cheiro do café passado cedo, na canoa atravessando o rio, na planta medicinal cultivada no quintal, na memória das enchentes e vazantes, na criança que aprende a ouvir os sons da mata. Continua nos ensinamentos transmitidos sem diploma, sem palco e sem reconhecimento institucional.
A permanência da Amazônia também depende dessas mulheres.
Das cientistas que monitoram mudanças climáticas. Das professoras que ensinam nas comunidades isoladas. Das parteiras tradicionais. Das pescadoras. Das agricultoras familiares. Das mães que alimentam cidades inteiras com o trabalho invisível que sustenta mercados, feiras e lares.
Enquanto o mundo debate o futuro climático do planeta em grandes conferências internacionais, muitas dessas mulheres seguem silenciosamente garantindo aquilo que sempre souberam fazer: preservar a vida.
Talvez a humanidade ainda não tenha entendido completamente que salvar a Amazônia passa, inevitavelmente, por escutar suas mulheres.
Neste Dia das Mães, a coluna Soul do Norte reverencia essas guardiãs da floresta. Mulheres que fazem da própria existência um ato contínuo de resistência, amor e perpetuação.
Porque a Amazônia também tem voz de mãe.
E ela ainda insiste em cuidar de nós.
Fontes:
INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
Museu Paraense Emílio Goeldi
Fapeam
Coluna Soul do Norte, por Tatiana Sobreira






