Segundo o levantamento, aproximadamente 66 mil mortes por doenças respiratórias estiveram relacionadas à exposição a temperaturas extremas durante os 11 anos analisados, o equivalente a cerca de 6 mil óbitos por ano.
Do total de mortes respiratórias estudadas, 4,27% foram atribuídas estatisticamente ao calor e 1,81% ao frio. Os pesquisadores utilizaram como referência nacional a temperatura de 22,4°C, identificada como o ponto de menor risco de mortalidade respiratória.
Os resultados indicam uma associação entre temperatura e mortalidade, mas não permitem afirmar que o calor tenha causado diretamente cada uma dessas mortes.
Calor intenso aumenta em 43% o risco de morte respiratória
A pesquisa identificou que, em comparação com a temperatura de menor risco, os dias de calor intenso estiveram associados a um aumento de 43% no risco de morte por doenças respiratórias. Nos episódios de frio extremo, a elevação foi de 29%.
O médico de família e pesquisador Guilherme Coelho, primeiro autor do estudo, explica que a predominância do calor está relacionada ao tempo de exposição da população brasileira às temperaturas elevadas.
“Encontramos a temperatura de menor risco em 22,4°C. O detalhe é que, em aproximadamente três quartos dos dias do ano, o país está acima desse ponto de conforto. Como a população passa muito mais tempo exposta ao calor, ele acaba acumulando mais mortes”, afirmou.
O resultado contrasta com pesquisas realizadas principalmente na Europa e nos Estados Unidos, onde o frio costuma apresentar maior associação com mortes por doenças respiratórias.
Segundo Coelho, o Brasil ainda enfrenta dificuldades de adaptação às temperaturas elevadas, tanto na infraestrutura das cidades quanto na preparação da população.
Região Norte registra maior proporção de mortes associadas ao calor
As diferenças regionais também aparecem no levantamento. No Norte, aproximadamente 12,5% das mortes respiratórias foram associadas ao calor, a maior proporção entre as regiões brasileiras.
No Sul, o frio permanece como o principal fator climático relacionado a esses óbitos.
Os pesquisadores identificaram ainda que a temperatura de menor risco varia conforme a região. Enquanto no Norte esse ponto fica próximo de 32°C, no Sul está em aproximadamente 23°C.
Essa diferença está relacionada à adaptação das populações às condições climáticas locais.
O estudo também aponta o chamado paradoxo do frio: em estados amazônicos, temperaturas próximas de 24°C podem estar associadas ao aumento da mortalidade respiratória, apesar de serem consideradas amenas em outras regiões brasileiras.
“O problema não é o número absoluto no termômetro, mas sair da temperatura à qual a população está acostumada. Casas construídas para dissipar calor, pouca adaptação fisiológica ao frio e serviços de saúde pouco habituados a esses episódios ajudam a explicar esse fenômeno”, explicou Coelho.
Para o pesquisador, os resultados indicam a necessidade de políticas de prevenção adaptadas às condições de cada região. Norte e Nordeste demandam medidas voltadas principalmente ao calor, enquanto o Sul também precisa de estratégias para episódios de frio.
Fumaça das queimadas e poluição agravam problemas respiratórios
O aumento das temperaturas pode afetar o funcionamento do sistema respiratório de diferentes maneiras.
A desidratação favorece o ressecamento das vias aéreas e torna as secreções pulmonares mais espessas, dificultando sua eliminação. Essas alterações podem contribuir para irritações, infecções e agravamento de doenças como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
“Além disso, respiramos mais rapidamente para dissipar calor, o que aumenta o esforço do sistema respiratório”, explicou o pneumologista Humberto Bogossian, do Einstein Hospital Israelita.
Outros fatores associados aos períodos quentes também podem aumentar os riscos, entre eles a baixa umidade do ar, a poluição atmosférica, a fumaça das queimadas e a elevação da concentração de ozônio.
A redução das áreas verdes e o aumento das superfícies impermeáveis nas cidades contribuem para a formação de ilhas de calor, que intensificam a exposição da população às temperaturas elevadas.
Esse cenário ganha relevância em Manaus, onde a fumaça dos incêndios florestais tem comprometido a qualidade do ar e provocado a suspensão de atividades escolares presenciais.
Segundo Bogossian, os agravamentos de doenças respiratórias, antes mais concentrados no outono e no inverno, também têm sido observados com maior frequência na primavera e no verão.
O médico relata aumento de episódios de agravamento de asma e DPOC durante os meses mais quentes.
Idosos representam 75% das mortes relacionadas às temperaturas extremas
A pesquisa identificou que cerca de 75% das mortes respiratórias associadas às temperaturas extremas ocorreram entre idosos.
A vulnerabilidade está relacionada às mudanças provocadas pelo envelhecimento, como a redução da capacidade de regular a temperatura corporal e a maior predisposição à desidratação.
A presença de doenças respiratórias e cardiovasculares também pode aumentar os riscos durante períodos de calor ou frio intenso.
Como reduzir os riscos à saúde durante o calor
Especialistas recomendam cuidados para diminuir a exposição às temperaturas elevadas e evitar o agravamento de doenças respiratórias:
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Manter a hidratação ao longo do dia;
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Evitar exposição ao sol nos horários de maior calor;
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Utilizar roupas leves;
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Manter os ambientes com umidade adequada;
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Seguir o tratamento prescrito para doenças respiratórias;
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Manter a vacinação em dia, conforme as recomendações de saúde, incluindo influenza, covid-19, pneumococo e vírus sincicial respiratório (VSR).
Os pesquisadores destacam que as medidas de prevenção precisam considerar as características climáticas de cada região brasileira, especialmente diante do aumento da frequência e da intensidade dos períodos de calor.






