Um grupo formado por mais de 80 organizações internacionais se posicionou contra possíveis mudanças nas regras de elegibilidade para atletas mulheres no esporte olímpico. As entidades pedem que o Comitê Olímpico Internacional (COI) rejeite propostas que incluem testes genéticos universais de sexo e a exclusão de atletas transgênero e intersexo das competições femininas.
A mobilização ganhou força após a divulgação de uma carta conjunta, publicada na terça-feira (17), que reúne instituições como a Sport & Rights Alliance, a ILGA World e a Humans of Sport. No documento, os grupos afirmam que as medidas representariam um retrocesso na luta por equidade de gênero no esporte.
“Diversas fontes afirmam que o grupo aconselhou o COI a exigir que todas as atletas mulheres e meninas passem por verificação genética de sexo e a impedir a participação de atletas transgênero e intersexo em competições femininas. O COI não confirmou publicamente essas recomendações”, diz o comunicado.
Segundo as organizações, a adoção dessas práticas pode violar direitos fundamentais, incluindo privacidade e dignidade. A diretora-executiva da Humans of Sport, Payoshni Mitra, destacou que esse tipo de medida expõe atletas, especialmente menores de idade, a riscos adicionais de proteção. Já Julia Ehrt, da ILGA World, reforçou que “o esporte deve ser um espaço de pertencimento”.
Organismos internacionais também já se manifestaram sobre o tema. Instituições como o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, a ONU Mulheres e a Associação Médica Mundial classificam testes de sexo como discriminatórios e potencialmente prejudiciais.
O COI, por sua vez, afirmou que ainda não há decisão tomada. Em nota, a entidade informou que o grupo de trabalho responsável pela proteção da categoria feminina segue analisando o tema. “O grupo de trabalho sobre a proteção da categoria feminina segue discutindo o tema e nenhuma decisão foi tomada ainda”, disse um porta-voz. “Mais informações serão divulgadas oportunamente.”
Historicamente, o Comitê Olímpico Internacional abandonou a prática de testes universais de sexo após os Jogos de Atlanta, em 1996. Desde então, a entidade tem evitado impor regras únicas sobre a participação de atletas transgênero, delegando às federações internacionais a criação de seus próprios critérios — orientação formalizada em 2021.
Na prática, algumas dessas federações já adotaram restrições. Modalidades como atletismo, natação e rugby passaram a limitar a participação de atletas que passaram pela puberdade masculina nas categorias femininas.
Entre os críticos das organizações está o acadêmico britânico Jon Pike, especialista em filosofia do esporte, que defende a proteção da categoria feminina. Para ele, a reação das entidades é exagerada. “(O grupo de trabalho) não vai propor uma proibição total; vai propor excluir homens da categoria feminina”, afirmou. Ele também classificou a carta como “risível, desesperada e absurda”.
O debate reflete um cenário global ainda em construção, no qual inclusão, ciência e justiça esportiva seguem em disputa, enquanto o COI avalia os próximos passos sobre um dos temas mais sensíveis do esporte contemporâneo.
Por Victoria Medeiros, da Redação da Jovem Pan News Manaus
Foto: Divulgação/COI






