Escrevo movido não por paixões circunstanciais, mas pelo dever moral de quem já atravessou décadas da vida pública e reconhece, à distância, o cheiro perigoso do arbítrio travestido de legalidade.
No turbilhão das crises políticas que assolam o Brasil, causa-me profunda inquietação a inércia do Parlamento diante das agruras impostas a Jair Messias Bolsonaro.
Não se trata aqui de devoção pessoal ou concordância ideológica, mas da defesa inegociável do devido processo legal e da dignidade humana. As denúncias reiteradas por Carlos Bolsonaro, em manifestações de janeiro de 2026, sobre prisão ilegal, sofrimento físico e psicológico e condenações que ele reputa injustas, expõem uma contradição moral devastadora: muitos que ascenderam sob esse nome hoje se refugiam num silêncio oportunista.
Esse mutismo institucional é agravado por alertas vindos de diferentes frentes. Os abusos do sistema penal e a omissão deliberada das instâncias que deveriam coibi-los precisa ser denunciada. As sucessivas denúncias, desde o final de 2025, apontam para um padrão inquietante de perseguições judiciais e bloqueios financeiros, enquanto votações cruciais, como a anistia ou iniciativas de denúncia internacional, permanecem engavetadas. Quando o Congresso se resigna à condição de espectador, o equilíbrio entre os Poderes se rompe silenciosamente.
Vejo nisso não simples negligência, mas uma conivência sutil e perigosa com forças que corroem a democracia por dentro. Por isso, falo com a franqueza que a experiência me impõe: é imperativo que essa complacência cesse. Que deputados e senadores se ergam, pressionem as lideranças das Casas e devolvam sentido ao mandato popular, transformando o clamor das redes em ação política concreta, como já se exigia em maio de 2025. Só assim será possível restaurar a dignidade de um ex-presidente que, culpado ou inocente, não pode ser privado do direito à Justiça e, sobretudo, preservar a própria República do vício fatal da omissão.
Por Arthur Virgílio Neto






