Realidades distintas: juros caem no início de 2026, mas eleição amplia incertezas na economia, afirmam especialistas

Analistas projetam primeiro semestre mais favorável, impulsionado pelo cenário externo e início do corte de juros; segundo semestre tende a concentrar riscos fiscais e políticos

A economia brasileira deve atravessar 2026 em dois cenários bem definidos, segundo especialistas do mercado financeiro. A avaliação é de que o primeiro semestre tende a ser mais positivo, sustentado pelo ambiente internacional e pela expectativa de início de um ciclo moderado de cortes na taxa básica de juros. Já o segundo semestre deve ser marcado por maior instabilidade, com o avanço do calendário eleitoral e o aumento das incertezas fiscais.

Para analistas, a principal marca do ano será a volatilidade, com oscilações mais frequentes no câmbio, nos juros e nos ativos financeiros. O movimento reflete o choque entre fatores externos favoráveis e fragilidades internas, sobretudo ligadas ao endividamento público.

Relatórios do UBS classificam 2026 como um ano “binário”, com dois momentos distintos ao longo do período.

“O primeiro semestre tende a ser impulsionado por fatores globais e pela expectativa de queda dos juros domésticos. Já o segundo semestre será dominado pela incerteza política e fiscal, à medida que a eleição se aproxima”, avalia a equipe do banco.

De acordo com o boletim Focus, a mediana das projeções indica crescimento de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, abaixo do ritmo esperado para 2025, mas ainda em terreno positivo.

Ambiente externo ajuda no começo do ano

O cenário internacional aparece como um dos principais vetores de sustentação no início de 2026. A expectativa é de que os Estados Unidos evitem uma recessão, mantendo o crescimento global próximo de 3%, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional.

Além disso, investimentos em tecnologia e inteligência artificial seguem como motores relevantes da economia global, impulsionando infraestrutura e produtividade. Outro fator apontado é a possibilidade de continuidade do ciclo de queda dos juros pelo Federal Reserve, o que tende a favorecer mercados emergentes.

“O corte de juros nos Estados Unidos costuma estimular a busca por ativos de risco e beneficia países com diferencial de juros elevado”, observam economistas.

Política monetária no Brasil e limites fiscais

No cenário doméstico, a política monetária segue como o principal instrumento de estabilidade. O Banco Central do Brasil manteve a Selic em patamar elevado ao longo de 2025 para conter a inflação e ancorar expectativas.

Com a desaceleração inflacionária, o mercado projeta o início dos cortes ainda no primeiro trimestre de 2026, mas de forma gradual.

“O ciclo de queda deve ser moderado e praticamente restrito ao primeiro semestre, por causa do cenário fiscal e do período eleitoral”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

A expectativa é de que a Selic encerre 2026 em torno de 12,25%, nível ainda considerado restritivo. Economistas alertam que a trajetória da dívida pública — que pode se aproximar de 84% do PIB — limita movimentos mais agressivos de redução dos juros.

“Existe uma tensão clara entre política fiscal e política monetária. Sem um plano crível de ajuste das contas públicas, o espaço para cortes mais profundos é reduzido”, observa Solange Srour, diretora de macroeconomia do UBS Wealth Management.

Segundo semestre concentra riscos

Com a aproximação das eleições, o segundo semestre tende a ser mais sensível ao noticiário político. O mercado acompanha de perto as propostas dos candidatos e a sinalização sobre o compromisso com reformas estruturais.

O principal risco apontado é o avanço da chamada dominância fiscal, situação em que o alto nível da dívida compromete a eficácia da política de juros, forçando o Banco Central a manter taxas elevadas por mais tempo.

Bolsa reage antes, crédito segue pressionado

Mesmo com juros ainda altos, analistas veem o mercado de ações como a classe de ativos com melhor perspectiva no primeiro semestre de 2026, apoiado por preços mais atrativos e expectativa de crescimento dos lucros corporativos.

Já o crédito deve seguir pressionado, refletindo os efeitos defasados da Selic elevada sobre famílias e empresas.

“O cenário ainda é duro para o crédito. Juros altos e inadimplência elevada continuam pesando sobre o consumo e os investimentos”, afirma Rodrigo Gallegos, especialista em reestruturação empresarial.

No balanço geral, especialistas avaliam que 2026 será um ano de transição, em que o desempenho da economia dependerá menos do ambiente externo e cada vez mais das escolhas políticas e fiscais feitas ao longo do processo eleitoral.

 

 

Com Informações da Gazeta do Povo

Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus