Repórter é agredido por perito durante cobertura em Manaus

Caso ocorreu na avenida dos Oitis; equipe registrou boletim e entidades se manifestaram

O repórter João Lucas da Silva Mariano, da Rede Onda Digital, foi empurrado por um perito criminal durante a cobertura de um acidente na manhã desta quinta-feira (9), na avenida dos Oitis, no Distrito Industrial, zona Leste de Manaus. A ocorrência era acompanhada por equipes de imprensa no momento da intervenção.

De acordo com o jornalista, a confusão começou quando o cinegrafista Duílio Cândido foi empurrado pelo perito, que alegava que a presença da imprensa estaria interferindo no trabalho pericial. A equipe registrava imagens no local quando houve a abordagem.

“Vale ressaltar que nós não estávamos atrapalhando o trabalho da polícia […] mesmo se por um momento nós estivéssemos, que ele pedisse com educação que nós sairíamos”, afirmou o repórter.

Segundo João Lucas, a situação se agravou rapidamente. Ele relata que o perito passou a retirar profissionais de imprensa do local com empurrões. “Ele começou a se exaltar e começou a expulsar todos os profissionais de imprensa, praticamente empurrando mesmo”, disse.

O repórter afirma que foi empurrado diversas vezes durante o episódio. “Ele me empurrou várias vezes, me empurrou contra uma placa que estava ali na calçada […] foi uma situação muito delicada”, relatou.

Em vídeo que circula nas redes sociais mostra o momento da confusão. Nas imagens, o perito manda o repórter se calar e reforça que a equipe estaria atrapalhando o trabalho da perícia. Outros jornalistas que estavam no local intervieram e pediram que o afastamento fosse solicitado de forma verbal.

Ocorrência policial e atendimento

O acidente que motivou a cobertura envolvia um motociclista, que morreu após ser arremessado para debaixo de um micro-ônibus, após colisão entre duas motos na via.

Após a agressão, o repórter e a equipe foram até uma delegacia e registraram boletim de ocorrência. O caso deve ser apurado pelas autoridades.

Nota da emissora

Em nota, a Rede Onda Digital repudiou o episódio e afirmou que acompanha o caso.

NOTA DE REPÚDIO — REDE ONDA DIGITAL

Durante cobertura jornalística realizada nesta data, o repórter João Lucas da Silva Mariano, Rede Onda Digital foi empurrado fisicamente por um perito criminal enquanto exercia legitimamente sua função.

O episódio foi registrado em vídeo.

A Rede Onda Digital repudia com total veemência qualquer forma de violência ou intimidação contra jornalistas e reafirma seu compromisso irrestrito com a liberdade de imprensa.

Esse comportamento é inaceitável e não ficará sem resposta.

O repórter providenciará o registro de boletim de ocorrência, e a emissora acompanhará todas as providências cabíveis para que o caso seja devidamente apurado pelas autoridades competentes.

O vídeo está à disposição das autoridades.

Agir com violência contra a imprensa é agir contra o direito da população à informação. Não existe pauta, cargo ou circunstância que justifique agredir um jornalista.

Jornalismo não se intimida.

Nota do Governo do Amazonas

O governador interino Roberto Cidade manifestou repúdio ao caso e afirmou que a conduta não representa o serviço público estadual.

“O Governador interino do Amazonas, Roberto Cidade, repudia a agressão sofrida pelo repórter João Lucas da Silva Mariano, da Rede Onda Digital e reforça que o fato se tratou de um ato isolado, não sendo essa a conduta adotada pelos servidores públicos do Estado do Amazonas.

O governador reforça que determinou, de forma imediata, a apuração rigorosa dos fatos e reitera seu total e absoluto respeito à imprensa, que desempenha um papel fundamental na manutenção do Estado Democrático de Direito”.

Nota de repúdio de entidades de jornalistas

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas e a Federação Nacional dos Jornalistas divulgaram nota conjunta classificando o episódio como agressão física contra profissionais no exercício da função.

Posicionamento do sindicato

O Sindicato dos Peritos Oficiais do Estado do Amazonas divulgou nota de esclarecimento sobre o episódio. A entidade afirmou que o isolamento do local de crime é responsabilidade das forças de segurança e que a presença de pessoas não autorizadas pode comprometer vestígios.

Segundo o sindicato, no caso, o local não estaria devidamente isolado, permitindo acesso de pessoas sem comprovação de credenciamento. A entidade informou que houve pedido para retirada, mas que a permanência no local teria prejudicado a realização da perícia.

O sindicato declarou que reconhece o papel da imprensa, mas destacou que a preservação do local de crime deve ser prioridade para garantir a produção de provas.

 

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O caso ocorre dois dias após o Dia do Jornalista, celebrado em 7 de abril. Em uma publicação feita pela presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Samira de Castro, a data tem sido marcada por desafios à categoria.

“É um momento desafiador. Nós somos atravessados não só pela violência cotidiana, mas pela precarização cada vez mais aguda da nossa profissão”, afirmou.

Segundo a dirigente, o cenário se agravou após a decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2009, que retirou a exigência de diploma para o exercício do jornalismo. Ela também critica mudanças recentes na legislação que, segundo a entidade, ampliam a desregulamentação no setor.

Dados do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos apontam queda no emprego formal de jornalistas no país, com redução de 60.899 profissionais em 2013 para 49.917 em 2023.

A Fenaj avalia que a combinação entre precarização, violência contra profissionais e mudanças regulatórias impacta o exercício da atividade e o acesso à informação.

 

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus