O Norte é delas: as mulheres que seguram o céu da Amazônia com as próprias mãos

Em 2026, duas cientistas brasileiras foram coroadas pelo que fazem há décadas — proteger a floresta com rigor e amor. Esta coluna é sobre elas, e sobre todas as outras que a Amazônia conhece pelo nome e o Brasil ainda está aprendendo a pronunciar

Eu nasci à margem esquerda do Solimões, em Codajás/AM, onde o rio decide o calendário de quem vive dele antes mesmo do relógio. Ele obedece o seu próprio tempo. Há quase quatro décadas moro em Manaus, mas carrego comigo essa medida de tempo que não é a do asfalto, dos carros e dos eletrônicos: é o tempo da cheia, da vazante, da água que sobe e desce como se respirasse em múltiplos corpos. E talvez seja por isso que, toda vez que encontro uma história de mulher que dedicou a vida a entender esse ritmo, eu sinto que estou ouvindo falar de alguém da minha própria família, da minha cidade e dos rios que nos conectam.

Este ano, duas dessas mulheres foram chamadas ao centro do palco. Não pela primeira vez que fizeram algo importante, mas pela primeira vez que o Brasil e o mundo pararam, oficialmente, para dizer: nós vimos vocês.

A que escuta a água parada

Maria Teresa Fernandez Piedade chegou à Amazônia vinda de São Carlos, no interior paulista, com um diploma de bióloga e, imagino, sem fazer ideia do tamanho do compromisso que estava assumindo e do ela iria encontrar pela frente. Hoje, quase cinco décadas depois, ela lidera o grupo de pesquisa Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas, o MAUA, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e acaba de receber o Prêmio Almirante Álvaro Alberto de 2026, a maior honraria científica do Brasil, concedida pelo CNPq em parceria com a Marinha,  uma medalha, um diploma e R$ 200 mil que não pagam o tamanho do que ela construiu, mas finalmente colocam um nome de mulher onde sempre esteve, silenciosamente, o trabalho e o compromisso com sua vida na Amazônia brasileira.

O que Maria Teresa estuda parece, à primeira vista, um detalhe da paisagem ou somente observações que não conectam: as áreas alagadas da Amazônia, esses lugares que não são bem rio nem bem terra, que vivem entre os dois mundos como quem não escolheu lado. Mas é justamente nesse “entre” que mora o segredo do Brasil inteiro. É o regime de cheias e vazantes que ela estuda que regula os estoques de carbono e alimenta os chamados “rios voadores” — esses rios invisíveis de umidade que sobem da floresta e descem como chuva sobre o Sul e o Sudeste, sustentando agricultura, energia, a vida de gente que nunca pisou na Amazônia brasileira e não tem a menor dimensão da importância desse fluxo.

Ela mesma resume o que está em jogo, e eu não saberia dizer melhor: “A sociedade brasileira depende inteiramente do balanço hídrico amazônico, e as ações humanas deletérias estão aprofundando a degradação desses ambientes numa corrida contra o tempo.”

Há um dado de Maria Teresa que me atravessou como pesquisadora e como filha do Solimões: ao monitorar os impactos da Hidrelétrica de Balbina, no Rio Uatumã, ela documentou que mais de 125 quilômetros de floresta ripária vêm morrendo aos poucos, há trinta anos, porque perderam a regularidade da água — engolidos não por uma tragédia repentina, mas pela demanda silenciosa de energia que a vida moderna exige. Trinta anos de uma floresta morrendo devagar, e foi preciso uma mulher dedicar a vida inteira a essa escuta para que alguém, finalmente, contasse essa história em números.

A que constrói pontes para quem não pode descer ao chão

Se Maria Teresa escuta a água parada, Fernanda Abra constrói caminhos no ar. A bióloga da conservação foi anunciada vencedora do Wayfinder Award 2026, da National Geographic Society, recebendo o título de Exploradora da instituição e um aporte de US$ 50 mil para expandir um projeto que parece simples, mas é genial: pontes suspensas — pontes de dossel — que reconectam a copa das árvores cortadas pelas estradas, para que os animais que vivem lá em cima não precisem descer ao chão e arriscar a vida atravessando o asfalto.

Quem é da Amazônia sabe: estrada nova, aqui, sempre vem com um preço que ninguém quis pagar: o bicho atropelado, o silêncio que some de um pedaço de mata. Quando acessamos ramais, estradas e caminhos de terra desmatados, basta olhar para cima: se houver um fio puxado, isso significa a presença humana invadindo o espaço dos habitantes naturais.

Cofundadora do Instituto Reconecta e da ViaFAUNA, Fernanda decidiu que esse preço não era inevitável. Desde 2021, suas pontes de dossel já permitiram mais de 20 mil travessias seguras de animais silvestres na Amazônia.

O exemplo que mais me toca é o da BR-174, estrada que conheço de perto, ligando o Amazonas a Roraima por dentro da Terra Indígena Waimiri-Atroari. Ali, 32 pontes de dossel foram erguidas numa cooperação que uniu a comunidade indígena local, a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e o DNIT: gente da floresta e gente do concreto, trabalhando juntas para que a estrada e a mata pudessem, enfim, coexistir. Em Mato Grosso, essas mesmas pontes ajudaram a salvar um primata que a ciência só conheceu há pouco tempo, o zogue-zogue-de-Alta-Floresta, já nascido sob ameaça de extinção. A solução de Fernanda foi tão eficiente que, em 2026, passou a integrar oficialmente as recomendações de engenharia do DNIT para rodovias federais brasileiras.

O que essas duas histórias ensinam

Eu não escrevo sobre Maria Teresa e Fernanda como quem descobre uma novidade. Escrevo como quem reconhece um padrão que conheço desde menina: a Amazônia sempre foi sustentada por mãos que o resto do país demorou a enxergar, uma invisibilidade que teima em permanecer escondida em suas florestas e rios. As inúmeras histórias de ribeirinhas que sabem prever a cheia pelo cheiro do vento. A pesquisadora que passa décadas dentro de um igapó para que o Brasil inteiro tenha chuva. A engenheira que pensa em pontes não para carros, mas para macacos.

O Norte sempre foi cuidado por essas mulheres, algumas com diploma, outras com a sabedoria que se herda de geração em geração na beira do rio, outras com palavras. A diferença, em 2026, é que duas delas finalmente subiram ao palco onde o Brasil costuma aplaudir. E talvez seja esse o real significado desses prêmios: não é a Amazônia que precisa do reconhecimento de fora para valer o que vale aqui dentro. É o Brasil que precisa, de vez em quando, parar e escutar o que o Norte já sabe há muito tempo.

O Norte é delas. E é meu, e é nosso — de quem nasceu na água e aprendeu, cedo, que cuidar da floresta nunca foi trabalho de um só.


Fontes: Agência Brasil (EBC) — dados institucionais sobre o Prêmio Almirante Álvaro Alberto 2026, CNPq, Marinha do Brasil e INPA | Portal O Eco — dados técnicos sobre o Wayfinder Award 2026 (National Geographic Society), Instituto Reconecta, ViaFAUNA e portarias do DNIT sobre pontes de dossel na BR-174

Coluna: Soul do Norte Por: Tatiana Sobreira | Diretora de Jornalismo Jovem Pan News Manaus e Vitória, publicada simultaneamente.