Câmara aprova projeto que cria a Universidade Federal Indígena

Proposta prevê sede em Brasília e campi em diferentes regiões do país; texto segue para o Senado
Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

A Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 6132/25, de autoria do Poder Executivo, que autoriza a criação da Universidade Federal Indígena (Unind). A nova instituição terá sede em Brasília e poderá funcionar de forma multicêntrica, com campi distribuídos em diferentes regiões do país, conforme a presença e as especificidades dos povos indígenas.

O texto recebeu parecer favorável da relatora, deputada Célia Xakriabá (Psol-MG), e será encaminhado ao Senado Federal para análise.

Segundo a relatora, a universidade propõe um modelo de formação alinhado a temas como justiça climática, proteção dos biomas, sustentabilidade dos territórios, valorização das línguas indígenas e produção científica intercultural. “Reconhecer um espaço de educação superior construído a partir dessas epistemologias reafirma o protagonismo indígena”, afirmou.

Célia Xakriabá, relatora da proposta - Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
Célia Xakriabá, relatora da proposta – Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

Célia Xakriabá também destacou que a criação da Unind representa uma política de Estado voltada aos direitos educacionais, culturais, territoriais e epistêmicos dos povos indígenas. Para a deputada, a iniciativa busca garantir acesso aos espaços formais de produção e circulação do conhecimento científico.

A universidade será organizada como autarquia federal. O estatuto definirá a estrutura administrativa e o funcionamento da instituição, observando a integração entre ensino, pesquisa e extensão.

Finalidades da instituição

De acordo com o projeto, a Universidade Federal Indígena terá entre seus objetivos:

  • ofertar ensino superior, desenvolver pesquisas e promover extensão universitária;

  • produzir conhecimentos voltados ao fortalecimento cultural, à gestão territorial e à garantia de direitos indígenas, em diálogo com saberes tradicionais;

  • incentivar inovações tecnológicas adequadas aos contextos ambientais e sociais;

  • promover a sustentabilidade socioambiental dos territórios;

  • valorizar, preservar e difundir culturas, histórias e línguas dos povos indígenas do Brasil e da América Latina.

Estrutura e patrimônio

A Unind poderá receber bens móveis e imóveis da União, além de doações, legados e direitos, para viabilizar o início das atividades administrativas. A instituição também poderá obter receitas por meio de serviços compatíveis com sua finalidade, convênios e contratos com entidades nacionais e internacionais.

Reitoria temporária

O Ministério da Educação ficará responsável pela nomeação do primeiro reitor e do vice-reitor, com mandato temporário, até a organização da universidade conforme o estatuto. Caberá ao reitor provisório definir as regras para a escolha da gestão definitiva.

Em até 180 dias após as nomeações, a instituição deverá encaminhar ao MEC propostas de estatuto e regimento geral. Os cargos de reitor e vice-reitor deverão ser ocupados por docentes indígenas.

Contratação de servidores

Após autorização na lei orçamentária, a universidade poderá realizar concursos públicos para professores e técnicos administrativos. O projeto estabelece critérios específicos para garantir percentual mínimo de candidatos indígenas, conforme a Lei de Cotas (Lei 15.142/25).

A Unind também poderá adotar processos seletivos próprios, com participação das comunidades indígenas e respeito à diversidade linguística e cultural.

Debate em Plenário

Durante a votação, o líder do PT, deputado Pedro Uczai (SC), afirmou que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação permite a criação de universidades especializadas. “Permite o campo do saber da sabedoria ancestral”, declarou.

O deputado Hildo Rocha (MDB-MA) citou a criação da primeira universidade indígena nos Estados Unidos, em 1884. “São 142 anos de atraso”, afirmou.

Já os deputados Tião Medeiros (PP-PR) e Bibo Nunes (PL-RS) criticaram o modelo, argumentando que a criação da instituição poderia representar segregação.

Em defesa do projeto, o deputado Chico Alencar (Psol-RJ) destacou a especificidade dos povos indígenas. “Essa universidade vai valorizar um saber único, com o qual temos muito a aprender”, disse.

Com a aprovação na Câmara, o projeto segue para análise do Senado Federal.

Com informações da Agência Câmara de Notícias*

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus