8 de março não nasceu de flores. Nasceu de fogo.

Coluna Soul do Norte
O Dia Internacional da Mulher tem origem na memória de tragédias que marcaram o início do século XX, quando mulheres trabalhadoras lutavam por direitos básicos, dignidade e condições humanas de trabalho.
O incêndio da Triangle Shirtwaist Factory (fábrica de roupas), ocorrido em 1911, em Nova York, foi brutal. As funcionárias foram trancadas e a ausência de saídas de emergência impediram a fuga das trabalhadoras quando o fogo começou a se espalhar.
Ao todo, 146 pessoas morreram, a maioria mulheres jovens, muitas delas imigrantes que lutavam por seus direitos e dignidade de trabalho.
A tragédia chocou o mundo e se transformou em um marco da luta por direitos trabalhistas, segurança nas fábricas e respeito às mulheres. Desde então, o dia 8 de março passou a simbolizar memória, resistência e a busca por igualdade.
Mas mais de um século depois, a realidade ainda nos confronta diariamente.
Não há um dia sequer que não estejamos a mercê de inseguranças em todos os espações possíveis e imagináveis.
No Brasil, a violência contra mulheres segue em números alarmantes. Em 2024, o país registrou cerca de 1.450 feminicídios, segundo dados do Ministério das Mulheres, o equivalente a quase quatro mulheres assassinadas por dia.
Levantamentos mais amplos apontam que em 2025 foram 6.904 vítimas de feminicídio consumado ou tentado, o que significa quase seis mulheres mortas por dia no país.

O maior índice de vítimas no país concentra-se entre 25 e 34 anos, representando 30,9% dos casos. Vítimas de 35 a 44 anos somam 24,8%, enquanto a faixa de 18 a 24 anos representa 15,8%.

A média de idade das vítimas no Brasil foi de 33 anos, ou seja, mulheres jovens e ativas. Mulheres mães e filhas.

Quando a gente olha os dados do relatório “Elas Vivem: a urgência da vida”, da Rede de Observatórios da Segurança, o alerta é claro. Em 2025, foram 4.558 casos de violência contra mulheres nos nove estados analisados e o Amazonas aparece entre os estados com maior número de registros, com 1.023 casos de violência de gênero. No recorte de violência sexual, o estado lidera o levantamento, com 353 casos, sendo que mais de 78% das vítimas são meninas e adolescentes de até 17 anos, mostrando que a violência muitas vezes começa cedo e, em muitos casos, dentro da própria casa. A violência do estupro corre por dentro tamanha a indignação, no Brasil 196 estupros de mulheres são registrados por dia, somando mais de 71 mil casos em um ano.
E esses números são apenas parte da realidade. Muitos casos sequer chegam às estatísticas por medo da denúncia e represálias oriundas da parte de quem tem que cuidar.
Entre as capitais brasileiras, diversas cidades aparecem recorrentemente entre as que concentram maiores índices de violência contra mulheres e feminicídio, como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Manaus, Recife, Brasília, Goiânia, Curitiba e Belo Horizonte, refletindo um problema estrutural que atravessa todo o país.
Mas essa luta não é apenas brasileira.
Em diversas partes do mundo, meninas e mulheres continuam pagando com a própria vida. Em conflitos recentes no Oriente Médio e em outras regiões em guerra, escolas, hospitais e áreas civis têm sido atingidos, resultando na morte de centenas de mulheres e meninas. Em contextos como o da Palestina e em outras zonas de conflito, organizações internacionais denunciam um impacto devastador sobre a população feminina.
Isso revela algo que atravessa séculos: ser mulher ainda significa lutar e resistir todos os dias.
Lutar para trabalhar.
Lutar para ocupar espaços.
Lutar para ser ouvida.
Lutar para não ser silenciada.
Lutar para existir.
Não há um dia sequer em que uma mulher não enfrente um comentário de deboche, uma tentativa de diminuição, uma ameaça velada ou explícita. Uma tentativa de quebra da nossa autonomia.
A violência contra nós não começa apenas com a agressão física.
Ela começa na humilhação, no controle, na chantagem, na violência psicológica, moral, sexual e patrimonial. Ela está presente na ausência e no sil6encio. Ela grita eu toso os espaócs dos nossos corpos.
E é por isso que o 8 de março não pode ser reduzido a flores, presentes ou homenagens vazias.
A pauta vai além da celebração.
Ela fala sobre sobrevivência.
Nós mudamos.
Conquistamos direitos.
Ocupamos espaços que antes nos eram negados.
Mas ainda estamos lutando.
E hoje dizemos, mais uma vez:
Basta.
Basta de violência contra nossos corpos.
Basta de silenciamento.
Basta de assassinatos.
Porque enquanto uma mulher for morta por ser mulher, essa luta continuará para além dos debates.
E por isso eu digo, em voz alta:
Sou mulher.
E não quero flores.
Quero respeito, justiça e vida.
Imagem IA
Por Tatiana Sobreira, Coluna Soul do Norte