Brasil permanece fora do Mapa da Fome, aponta relatório da ONU

Relatório da FAO mostra que país manteve índice de subnutrição abaixo de 2,5% entre 2023 e 2025; insegurança alimentar também apresentou redução
Foto: FAO/Giuseppe Carotenuto

O Brasil permanece fora do Mapa da Fome, segundo o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2026 (SOFI 2026), divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O levantamento aponta que, no triênio 2023-2025, a proporção da população em situação de subnutrição ficou abaixo de 2,5%, limite adotado pela organização para classificar um país fora do Mapa da Fome.

Os dados foram apresentados nesta terça-feira (21), durante a 30ª Sessão do Comitê de Agricultura da FAO, em Roma.

Esta é a segunda vez que o Brasil deixa o Mapa da Fome. A primeira ocorreu em 2013. O país voltou a registrar índices acima do limite entre 2020 e 2022, quando 3,5% da população estava em situação de fome, e retornou ao grupo de países fora do mapa com base no relatório referente ao triênio 2022-2024, divulgado em 2025.

Indicador mede acesso à alimentação

Há mais de cinco décadas, a FAO utiliza o indicador de Prevalência de Subnutrição (PoU) para monitorar a fome no mundo. O índice estima a parcela da população que não consegue consumir a quantidade mínima de calorias necessária para uma vida saudável, considerando fatores como renda e disponibilidade de alimentos.

O relatório SOFI é elaborado pela FAO em conjunto com o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), Organização Mundial da Saúde (OMS), Programa Mundial de Alimentos (PMA) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Segundo José Graziano da Silva, fundador do Instituto Fome Zero e ex-diretor-geral da FAO, os indicadores sugerem que a situação brasileira pode ser ainda melhor do que a registrada oficialmente.

De acordo com ele, outros dados do relatório indicam que a subalimentação no país pode estar atualmente entre 0,6% e 0,7% da população.

Insegurança alimentar severa atinge 1,2 milhão de pessoas

O relatório mostra que a insegurança alimentar severa no Brasil caiu para 0,6% da população, o equivalente a cerca de 1,2 milhão de pessoas, o menor percentual da série histórica.

Esse indicador considera pessoas que enfrentaram falta de alimentos, passaram fome ou ficaram um dia inteiro sem comer por falta de recursos.

Apesar da redução, José Graziano afirmou que o número ainda exige atenção, por representar mais de um milhão de brasileiros em situação de vulnerabilidade.

Número de pessoas em insegurança alimentar também diminui

A proporção de brasileiros em situação de insegurança alimentar moderada ou grave também apresentou queda.

Entre 2023 e 2025, o índice foi de 9,6% da população, cerca de 20,3 milhões de pessoas.

Nos triênios anteriores, os percentuais registrados foram:

  • 22,1% entre 2020 e 2022;
  • 18,4% entre 2021 e 2023;
  • 13,3% entre 2022 e 2024.

Segundo a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, a redução está relacionada ao aumento da renda, ampliação do acesso aos alimentos e fortalecimento das políticas de segurança alimentar.

Ela afirmou que o combate à fome depende da integração entre políticas de geração de renda, incentivo à produção de alimentos saudáveis e organização dos sistemas alimentares.

Cai número de brasileiros sem acesso à alimentação saudável

O levantamento também aponta redução no número de pessoas que não conseguem pagar por uma alimentação saudável.

Em 2025, 21,1% da população brasileira, cerca de 44,8 milhões de pessoas, estavam nessa condição.

Em 2021, esse percentual era de 31,1%, equivalente a 65,3 milhões de brasileiros.

Segundo os dados, aproximadamente 20,5 milhões de pessoas passaram a ter condições de adquirir uma dieta saudável.

O custo médio diário de uma alimentação saudável no Brasil foi estimado em US$ PPC 4,89 por pessoa em 2025, acima dos US$ PPC 4,69 registrados em 2024. Ainda assim, o valor permaneceu abaixo da média da América do Sul (US$ PPC 4,94) e da América Latina e Caribe (US$ PPC 4,91).

Relatório aponta desafios na nutrição

Apesar dos avanços, o relatório destaca indicadores que continuam preocupando.

Entre os dados mais recentes sobre o Brasil estão:

  • 8,7% dos bebês nasceram com baixo peso em 2020;
  • 45,8% dos bebês de até cinco meses receberam aleitamento materno exclusivo em 2024;
  • 3,4% das crianças menores de cinco anos apresentaram desnutrição aguda em 2024;
  • 8,9% das crianças menores de cinco anos tiveram atraso no crescimento;
  • 10,9% das crianças nessa faixa etária estavam acima do peso;
  • 30,1% dos adultos apresentavam obesidade em 2024, o equivalente a 48,7 milhões de pessoas;
  • 21,3% das mulheres entre 15 e 49 anos tinham anemia em 2023, cerca de 11,9 milhões de pessoas.

Entre as crianças de seis a 23 meses, 63,3% atingiram a diversidade alimentar mínima em 2024, percentual superior à média mundial, que foi de 30,8%.

Fome diminui no mundo, mas recuperação é desigual

O relatório também aponta redução da fome em nível global pelo terceiro ano consecutivo.

Segundo a FAO, cerca de 645 milhões de pessoas passaram fome em 2025, redução de quase 14 milhões em relação a 2024 e de 43 milhões na comparação com 2022.

A taxa mundial de fome caiu de 8,6% em 2022 para 8,1% em 2024 e atingiu 7,8% em 2025.

A recuperação, no entanto, ocorre de forma desigual entre os continentes. Enquanto Ásia, América Latina e Caribe registraram melhora nos últimos anos, a África concentra atualmente o maior número de pessoas em situação de fome.

O continente africano reúne cerca de 309 milhões de pessoas nessa condição, o equivalente a 20% da população regional.


Com informações da Agência Brasil*

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus