EUA e Arábia Saudita negociam acordo nuclear com possibilidade de enriquecimento de urânio

Pacto de 30 anos prevê participação de empresas americanas e será analisado pelo Congresso dos Estados Unidos

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aprovou um acordo com a Arábia Saudita que pode permitir ao país desenvolver capacidade própria de enriquecimento de urânio para um programa nuclear civil, segundo informações da agência Associated Press (AP).

Duas fontes próximas às negociações informaram à agência, sob condição de anonimato, que o acordo poderá ser anunciado oficialmente pelos dois países nesta quarta-feira (22).

O pacto terá duração prevista de 30 anos e deve incluir a participação de empresas americanas no desenvolvimento da estrutura nuclear saudita. A construção de uma instalação de enriquecimento de urânio no território da Arábia Saudita poderá ocorrer após estudos conjuntos entre os dois países.

Congresso dos EUA deverá analisar acordo

O acordo ainda precisa passar pela avaliação do Congresso dos Estados Unidos e pode enfrentar resistência de parlamentares preocupados com os riscos de proliferação nuclear.

A principal preocupação é que a transferência de tecnologia e a possibilidade de enriquecimento de urânio pela Arábia Saudita possam ampliar uma corrida por capacidade nuclear no Oriente Médio.

A Arábia Saudita integra a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), organização responsável por promover o uso pacífico da energia nuclear e realizar inspeções para verificar se países mantêm atividades nucleares dentro das normas internacionais.

Segundo uma das fontes ouvidas pela AP, o acordo não deve incluir o Protocolo Adicional da AIEA, mecanismo que amplia o acesso dos inspetores internacionais a instalações e informações sobre programas nucleares.

Negociação ocorre em meio a tensão com o Irã

O possível anúncio ocorre durante a escalada de tensão envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Um dos objetivos declarados das ações contra Teerã é impedir o avanço da capacidade iraniana de desenvolver armas nucleares.

O Irã afirma que seu programa de enriquecimento de urânio tem finalidade exclusivamente civil.

A Casa Branca e autoridades sauditas ainda não comentaram oficialmente o acordo. A negociação também foi divulgada inicialmente pelo jornal Wall Street Journal.

Trump e o ex-presidente americano Joe Biden já haviam buscado um acordo de cooperação nuclear com a Arábia Saudita envolvendo tecnologia dos Estados Unidos.

Especialistas alertam para risco de proliferação

Especialistas em segurança nuclear avaliam que a operação de centrífugas em território saudita poderia aumentar o risco de um futuro programa militar nuclear.

O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, já afirmou que o país poderia buscar armas nucleares caso o Irã desenvolvesse uma bomba atômica.

O enriquecimento de urânio, por si só, não significa a produção imediata de uma arma nuclear. Para isso, são necessárias outras etapas, como desenvolvimento de sistemas de detonação e tecnologias específicas. No entanto, o processo é considerado uma etapa importante para países que buscam ampliar sua capacidade nuclear.

Cooperação nuclear saudita envolve outros países

O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, visitou a Arábia Saudita no ano passado e discutiu com autoridades locais a expansão da indústria nuclear comercial do país.

O Departamento de Energia dos EUA não respondeu aos pedidos de comentário sobre as negociações.

A Arábia Saudita e o Paquistão, país que possui armas nucleares, também assinaram recentemente um acordo de defesa mútua após um ataque de Israel contra o Catar. O ministro da Defesa paquistanês afirmou posteriormente que o programa nuclear do país estaria disponível para a Arábia Saudita em caso de necessidade.

A declaração foi interpretada como uma sinalização ao governo de Israel, considerado o único país do Oriente Médio com armas nucleares.

Modelo dos Emirados Árabes é citado como referência

Os Emirados Árabes Unidos, vizinhos da Arábia Saudita, adotaram uma abordagem diferente ao desenvolver seu programa nuclear.

O país assinou com os Estados Unidos o chamado “acordo 123” para construção da usina nuclear de Barakah, com participação da Coreia do Sul. Como parte do acordo, os Emirados aceitaram não realizar enriquecimento de urânio próprio.

A medida é considerada por especialistas em não proliferação como um dos principais modelos para países que buscam energia nuclear exclusivamente para fins civis.


Foto: Reuters
Com informações do G1*

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus