A gestação e o puerpério são períodos marcados por profundas transformações físicas, emocionais, familiares e sociais. Nesse contexto, o acompanhamento multiprofissional e humanizado é fundamental para garantir segurança, informação e acolhimento às pessoas gestantes e às mães.
A Semana Nacional de Conscientização sobre os Cuidados com as Gestantes e as Mães, instituída pela Lei nº 15.221/2025, busca ampliar o acesso à informação, incentivar o acompanhamento pré-natal qualificado e reforçar a importância do cuidado integral e humanizado durante a gravidez e o período pós-parto.
A mobilização ocorre durante o Agosto Dourado, campanha dedicada à promoção, proteção e apoio à amamentação, reforçando a necessidade de cuidados não apenas com o bebê, mas também com a pessoa que gesta.
Para Ana Paula Esteves, chefe da Divisão de Enfermagem da Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ME-UFRJ), a iniciativa representa uma oportunidade de fortalecer as políticas públicas de saúde materna e neonatal e estimular o protagonismo da gestante nas decisões relacionadas ao próprio cuidado.
Segundo a especialista, a proposta também contribui para consolidar uma cultura de assistência baseada em evidências científicas, respeito e humanização. “Na prática, a mobilização promove mais conhecimento, autonomia e segurança para toda a família”, destaca.
Pré-natal deve começar no início da gestação
O acompanhamento pré-natal é uma das principais estratégias para identificar precocemente riscos e acompanhar a saúde da gestante e do bebê. Maria da Guia, ginecologista e obstetra da Maternidade Escola Januário Cicco, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (MEJC-UFRN), recomenda que a primeira consulta seja realizada o mais cedo possível, preferencialmente até a oitava semana e sempre antes da 12ª semana de gestação.
A orientação é que a gestante procure a unidade de saúde mais próxima de sua residência e, se possível, esteja acompanhada por uma pessoa de sua escolha.
Dados de pesquisa realizada pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam que cerca de 55% das gestações no Brasil não são planejadas. Para Maria da Guia, esse cenário reforça a necessidade de ampliar o acesso à informação e ao planejamento reprodutivo.
“A gravidez não programada pode trazer repercussões na educação, no emprego e na sobrevivência de uma forma geral”, explica a médica.
Nas maternidades universitárias da rede HU Brasil, o atendimento é estruturado de forma integrada, com acompanhamento que vai do pré-natal ao pós-parto. O modelo reúne assistência, ensino, pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico.
Na ME-UFRJ, o atendimento contempla tanto gestações de risco habitual quanto casos de maior complexidade, com equipes especializadas e atenção às necessidades físicas e emocionais da gestante.
No Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), Fernanda Rodrigues, chefe da Unidade de Saúde da Mulher, destaca que a conscientização também reforça a responsabilidade dos profissionais na promoção de um nascimento seguro e de um puerpério com menos riscos e intercorrências.
Saúde mental também deve fazer parte do cuidado
Além dos aspectos físicos, a saúde emocional precisa ser acompanhada durante toda a gestação e no período pós-parto. De acordo com Ana Paula Esteves, a identificação precoce de situações de vulnerabilidade é essencial diante das intensas mudanças vivenciadas nesse período.
No Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC-UFG), a médica Ana Carolina Bosch explica que questões relacionadas à saúde mental já fazem parte da rotina assistencial. Durante as consultas, a equipe procura identificar alterações no sono, ansiedade e mudanças de humor.
A estratégia é importante porque muitas mulheres não relatam espontaneamente que estão enfrentando dificuldades emocionais.
“O acompanhamento precisa considerar a mulher de forma integral, e não apenas os aspectos relacionados à gestação e ao parto”, destaca a especialista.
Informação ajuda a combater mitos sobre o parto
Outro ponto destacado pelas especialistas é a necessidade de ampliar o acesso a informações confiáveis sobre as diferentes vias de parto.
Ana Carolina Bosch chama atenção para alguns dos principais mitos relacionados ao tema, como a ideia de que a cesariana é sempre mais segura, que o parto vaginal necessariamente provoca dor insuportável ou que bebês considerados grandes não podem nascer por parto vaginal. Também é comum a crença de que, após uma cesariana, todos os partos seguintes obrigatoriamente precisam ser cesáreos.
Nas maternidades, essas dúvidas são trabalhadas durante as consultas de pré-natal e em rodas de conversa, sempre com base em evidências científicas e considerando a história, as condições clínicas e os desejos de cada gestante.
“Parto humanizado não é sobre seguir uma cartilha rígida, é sobre a mulher entender as opções e decidir com segurança”, afirma Ana Carolina.
Maria da Guia observa que muitas mulheres chegam aos serviços de saúde sem informações suficientes e, em alguns casos, demonstram preferência pela cesariana por medo ou pela percepção de que o procedimento seria mais simples e seguro.
“Este talvez seja um dos maiores problemas que enfrentamos no momento, junto com a prematuridade e as malformações fetais”, comenta.
Rede de apoio é fundamental durante e depois do parto
A participação do acompanhante e da rede de apoio também é apontada como um dos fatores importantes para uma experiência mais segura e acolhedora durante a maternidade.
Segundo Ana Paula Esteves, a presença de uma pessoa escolhida pela gestante pode ajudar a reduzir a ansiedade, ampliar a sensação de segurança e proporcionar uma experiência mais positiva durante o nascimento.
Fernanda Rodrigues ressalta que esse apoio deve estar presente durante a gestação, o parto e o pós-parto. Para ela, compartilhar com o acompanhante informações sobre o plano de parto e os cuidados necessários no puerpério contribui para que a gestante se sinta mais acolhida e protegida.
O suporte também deve continuar após a alta hospitalar. Para Ana Carolina Bosch, a rede de apoio tem papel decisivo nas primeiras semanas após o nascimento, período que pode ser marcado por cansaço, insegurança e sobrecarga.
“A rede que ampara a mulher nas semanas seguintes é o que faz a diferença entre um puerpério tranquilo e um puerpério de exaustão silenciosa”, afirma.
Segundo a médica, familiares e companheiros podem atuar de maneira mais efetiva ao dividir tarefas, oferecer apoio prático e acolher os sentimentos da mulher, sem cobranças.
Assim, o cuidado durante a gestação e o puerpério vai além do acompanhamento médico. Envolve informação de qualidade, escuta, saúde mental, participação nas decisões, assistência multiprofissional e uma rede de apoio preparada para acolher a gestante e a mãe em todas as etapas da maternidade.
Com informações da Agência Brasil*
Por Leidy Amaral, da redação da Jovem Pan News Manaus
Foto: Divulgação/Internet






