Após a redução do desmatamento em terras públicas, o Brasil passa a enfrentar um novo desafio: o avanço da derrubada de floresta em propriedades privadas. O cenário ganhou destaque com o lançamento do Plano Clima, em março de 2026, que estabelece metas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, mas evidencia entraves dentro do próprio governo federal.
O plano prevê a redução entre 59% e 67% das emissões até 2035, tomando como base os níveis de 2005. O desmatamento segue como principal fonte de emissão no país, especialmente no setor de uso da terra, responsável por 39,5% das emissões líquidas, segundo o Inventário Nacional de Gases de Efeito Estufa mais recente.
Dados mostram uma mudança no perfil da devastação. Em 2021, as terras públicas não destinadas concentravam 36,7% do desmatamento. Em 2024, esse percentual caiu para 33%. No mesmo período, os imóveis rurais passaram de 24,4% para 33,8%, tornando-se a principal origem da perda de vegetação.
“Foi uma grata surpresa porque, historicamente, as florestas públicas eram o principal alvo. Mas agora entramos em um novo processo, com maior pressão sobre áreas privadas”, explicou a especialista em Código Florestal do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Jarlene Gomes.
Diante desse cenário, o Plano Clima estabelece metas mais rigorosas para propriedades privadas, prevendo uma redução de emissões superior a 100% em relação a 2022. Na prática, a diretriz busca transformar essas áreas em “sumidouros de carbono”, com maior capacidade de absorção de gases por meio da regeneração ambiental.
No entanto, a implementação enfrenta resistência dentro do setor agropecuário. Durante a elaboração do plano, o Ministério da Agricultura se posicionou contra assumir sozinho a responsabilidade pela redução das emissões relacionadas ao desmatamento em áreas privadas.
Inicialmente, a proposta previa que o setor agropecuário fosse responsável por reduzir 54% das emissões. Após impasse, o percentual foi reduzido para 7%, e a gestão das ações passou a ser compartilhada com o Ministério do Meio Ambiente.
“No plano, a parte mais sensível, que envolve conter o desmatamento, ficou sob a governança ambiental, o que reduz a responsabilidade direta do setor agrícola”, explicou Marta Salomon, do Instituto Talanoa.
Outro ponto central do debate é a efetividade do Código Florestal, principal instrumento legal para controlar o desmatamento em áreas privadas. A legislação exige que propriedades na Amazônia Legal mantenham até 80% de vegetação nativa, mas dados indicam que cerca de 90% do desmatamento nesses imóveis ocorre justamente em áreas que deveriam ser preservadas, o que caracteriza ilegalidade.
A execução da política depende de ferramentas como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), o Programa de Regularização Ambiental (PRA) e as Cotas de Reserva Ambiental (CRA). No entanto, o CAR, que é autodeclaratório, ainda apresenta limitações. Atualmente, cerca de 65% dos registros na Amazônia aguardam análise, dificultando a fiscalização.
“Com o cadastro, é possível enxergar melhor o uso do solo, mas o desafio agora é garantir a implementação e a validação dessas informações”, afirmou Jarlene Gomes.
Nos últimos anos, houve retomada de ações de fiscalização, com operações mais frequentes de órgãos como Ibama e ICMBio, além do uso de monitoramento por satélite e embargos automáticos. Essas medidas contribuíram para a redução do desmatamento em áreas públicas, mas o foco agora se volta para propriedades privadas.
O Plano Clima não possui força de lei, funcionando como uma diretriz estratégica que depende da execução de políticas já existentes e da atuação coordenada entre União, estados e municípios.
“O Brasil tem uma rota definida, mas o desafio é tirar o plano do papel e garantir sua implementação efetiva”, destacou Marta Salomon.
Com a mudança no perfil do desmatamento, o país passa a concentrar esforços em um novo eixo de atuação, considerado decisivo para o cumprimento das metas climáticas e para o compromisso assumido no Acordo de Paris.
Com Informações do Site InfoAmazônia
Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus






