Queimadas avançam no Amazonas e deixam 36 municípios em situação de emergência

Incêndios florestais provocam suspensão de aulas, problemas respiratórios e prejuízos à produção agrícola. Estado registrou aumento de 271% nos focos de queimadas nos dez primeiros dias de outubro.

Os incêndios florestais levaram 36 dos 62 municípios do Amazonas à situação de emergência. O reconhecimento foi oficializado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) no sábado (10). A medida permite o repasse de recursos federais e a ampliação das operações de combate ao fogo e assistência à população.

Nesta terça-feira (13), a fumaça continua afetando a rotina de moradores de Manaus e de municípios do interior. Escolas suspenderam atividades presenciais, competições esportivas foram interrompidas e unidades de saúde registraram atendimentos por problemas respiratórios.

O governo federal mobilizou aeronaves e brigadistas para atuar nas regiões atingidas. Paralelamente, autoridades investigam a origem dos incêndios e a possível participação de grupos envolvidos em queimadas criminosas.

Amazonas registra aumento de 271% nos focos de incêndio

Dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que o Amazonas contabilizou 1.380 focos de incêndio entre os dias 1º e 10 de outubro de 2026.

No mesmo período de 2025, foram registrados 372 focos. O levantamento representa crescimento de 271% em um ano.

Do total de ocorrências, 1.186 foram identificadas em áreas públicas. Também houve registros de 246 focos em assentamentos federais, 116 em terras indígenas e 97 em unidades de conservação. Essas categorias podem apresentar sobreposição territorial.

Quatro municípios amazonenses aparecem entre os 20 com maior número de focos de queimadas no Brasil durante outubro:

  • Lábrea: 214 focos, ocupando a 4ª posição nacional;

  • Boca do Acre: 174 focos, na 8ª posição;

  • Autazes: 151 focos, na 10ª posição;

  • Itacoatiara: 75 focos, na 20ª posição.

Os incêndios também passaram a atingir a Região Metropolitana de Manaus e o Baixo Amazonas, além das áreas do Sul do estado que historicamente concentram ocorrências.

Fumaça provoca suspensão de aulas em Manaus e no interior

A presença de fumaça levou à suspensão de atividades escolares nesta terça-feira (13). A rede municipal de Manaus manteve as aulas suspensas, enquanto a Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (Seduc) interrompeu as atividades nos turnos matutino, vespertino e noturno nas escolas estaduais da capital.

A medida também alcança unidades estaduais de Autazes e do distrito de Cacau Pirêra, em Iranduba.

No Instituto Federal do Amazonas (Ifam), o Campus Manaus Centro suspendeu as aulas e as atividades acadêmicas e administrativas presenciais durante todos os turnos.

As decisões seguem orientações da Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) e da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-RCP), que recomendam reduzir a exposição à fumaça, evitar atividades ao ar livre e manter os ambientes internos fechados sempre que possível.

A Federação Amazonense de Futebol (FAF) também suspendeu, desde segunda-feira (12), as competições das categorias de base por tempo indeterminado, em razão das condições do ar.

Manaus registra atendimentos por problemas respiratórios

Mesmo após a chuva registrada durante a madrugada desta terça-feira, Manaus continuou apresentando a pior qualidade do ar entre as cidades brasileiras monitoradas pela plataforma internacional IQAir.

Entre os dias 1º e 8 de outubro, a Secretaria de Estado de Saúde contabilizou 82 atendimentos de urgência relacionados a problemas respiratórios atribuídos à fumaça na capital.

Entre os sintomas relatados por moradores estão irritação na garganta, congestão nasal, dores de cabeça e dificuldades para dormir.

Em Autazes, foram identificados 139 focos de queimadas nas 72 horas anteriores ao levantamento, correspondentes a 19,1% das ocorrências estaduais no período. A qualidade do ar no município foi classificada como péssima.

Na segunda-feira (12), o governo federal começou a enviar mensagens de alerta pelo WhatsApp, utilizando a conta oficial GovBR. As notificações orientam a população sobre hidratação, uso de máscaras e medidas para reduzir a entrada de fumaça nas residências.

Incêndios provocam prejuízos à agricultura no interior

Além dos impactos à saúde, as queimadas atingem áreas de vegetação e produção agrícola.

Na comunidade do Jacarezinho, na zona rural de Itacoatiara, um incêndio destruiu 256,71 hectares de vegetação, área equivalente a aproximadamente 360 campos de futebol.

Em Parintins, a destruição de lavouras provocou redução na oferta de produtos agrícolas. Derivados da mandioca, incluindo a farinha, registraram aumentos de preços de até 100%.

Governo federal mobiliza aeronaves e brigadistas

As operações de combate aos incêndios contam com 290 brigadistas federais e 11 aeronaves mobilizadas pelo governo federal.

A estrutura inclui seis aviões Air Tractor, três helicópteros, um avião Caravan e um cargueiro KC-390 Millennium, da Força Aérea Brasileira (FAB).

O KC-390 possui capacidade para lançar até 12 mil litros de água por voo. As aeronaves estão sendo utilizadas em operações em Manaus, Autazes, Itacoatiara, Parintins e outras áreas atingidas.

O planejamento também prevê a instalação de uma base de apoio às operações aéreas em Itacoatiara. Para esta terça-feira (13), estavam previstos três voos do KC-390, sendo um na região de Parintins e dois em Itacoatiara.

O governo de São Paulo também enviou uma equipe de 30 profissionais, entre bombeiros e agentes da Defesa Civil, acompanhados de drones e 11 mil litros de retardante de chamas.

Autoridades investigam suspeitas de incêndios criminosos

As investigações sobre a origem das queimadas identificaram indícios de ação humana em áreas de floresta preservada.

Durante um sobrevoo de monitoramento, representantes do governo federal localizaram focos de incêndio em regiões isoladas e de difícil acesso.

O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, apontou a possibilidade de utilização do fogo para degradar áreas florestais e facilitar o desmatamento ilegal.

Em Itacoatiara, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente identificou oito suspeitos de provocar queimadas na zona rural. Os casos foram encaminhados à Polícia Civil e ao Ministério Público do Amazonas (MPAM).

As autoridades federais defendem a integração entre órgãos ambientais, forças policiais e Corpo de Bombeiros para identificar os responsáveis pelos incêndios.

O reconhecimento federal da situação de emergência em 36 municípios permite ampliar as ações de combate ao fogo e a assistência às comunidades atingidas, incluindo atendimento médico e apoio humanitário.

 

 Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica

Por Erike Ortteip, da redação da Jovem Pan News Manaus.