A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no Amazonas, completa 30 anos de criação como a primeira unidade de conservação desse modelo no Brasil. Instituída em 1996, a reserva reúne mais de um milhão de hectares de florestas alagáveis e consolidou um sistema de gestão baseado na permanência das comunidades tradicionais em seus territórios, aliando conservação da biodiversidade, pesquisa científica e uso sustentável dos recursos naturais.
A unidade integra o Complexo de Conservação da Amazônia Central, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial Natural, além de fazer parte da lista de Áreas Úmidas de Importância Internacional da Convenção de Ramsar. O território abriga espécies da fauna amazônica e comunidades ribeirinhas que participam da gestão dos recursos naturais em conjunto com pesquisadores.
O modelo começou a ser desenvolvido ainda na década de 1980 e representou uma mudança na política de conservação ambiental ao demonstrar que era possível conciliar a proteção da biodiversidade com a permanência das populações tradicionais em suas áreas de origem.
Entre os principais idealizadores da proposta está o biólogo José Márcio Ayres (1954-2003). Sua atuação foi decisiva para a criação da Reserva Mamirauá e para a implantação de um modelo de conservação que passou a integrar pesquisa científica, conhecimentos tradicionais e gestão participativa. O trabalho desenvolvido na reserva tornou-se referência para outras iniciativas de conservação no Brasil e no exterior.
Segundo o diretor-geral do Instituto Mamirauá, João Valsecchi do Amaral, a criação da reserva modificou a forma como as unidades de conservação eram implantadas no país.
“Naquele momento, a criação de uma unidade de conservação ainda era frequentemente associada à retirada das populações que viviam no território. Mamirauá mostrou que era possível seguir outro caminho: reconhecer as comunidades tradicionais como protagonistas da conservação, assegurando sua permanência no território e valorizando seus modos de vida”, afirmou.
De acordo com Valsecchi, a integração entre ciência, conhecimento tradicional e parcerias institucionais permitiu consolidar o modelo ao longo das últimas três décadas. Ele destaca que os desafios atuais envolvem questões climáticas, sociais e econômicas, mantendo como prioridade a permanência das comunidades e a produção de pesquisa aplicada.
Atualmente, a Reserva Mamirauá é considerada um dos principais exemplos brasileiros de unidade de conservação onde os resultados de pesquisas orientam diretamente as regras para utilização dos recursos naturais. O modelo reúne monitoramento contínuo da biodiversidade, inovação tecnológica e definição conjunta das normas de manejo com moradores da região.
Trinta anos após sua criação, o modelo implantado em Mamirauá está presente em 46 Reservas de Desenvolvimento Sustentável distribuídas pelo país.
Morador da reserva e presidente da Associação de Moradores e Usuários da Reserva Mamirauá (AMURMAM), Carlos de Carvalho Gonçalves afirma que crescer no território influenciou sua trajetória.
“A minha infância na RDS Mamirauá foi de muito aprendizado. O mais importante é saber que o lugar onde vivemos está protegido e poderá ser utilizado pelas futuras gerações. Nós, como moradores, temos orgulho de dizer que nosso território foi nossa escola de aprendizado para o futuro”, disse.
Entre os projetos desenvolvidos na reserva está o manejo participativo do pirarucu, baseado em pesquisas científicas e no conhecimento tradicional das comunidades ribeirinhas. O sistema utiliza contagens periódicas dos estoques realizadas pelos próprios pescadores antes da definição das cotas de captura.
Segundo o Instituto Mamirauá, o programa contribuiu para retirar a espécie do risco de extinção nas áreas manejadas, registrando aumento superior a 600% nos estoques monitorados e média de 1,80 metro no tamanho dos peixes capturados. A metodologia passou a ser utilizada como referência em outras iniciativas de manejo pesqueiro na Amazônia e em países da bacia amazônica.
Além do manejo pesqueiro, centenas de pesquisas e ações voltadas às comunidades são desenvolvidas na reserva. A moradora Ruth Martins lembra que, antes da implantação dos programas de manejo, havia intensa exploração madeireira em algumas áreas.
“Com o programa de manejo florestal, o povo foi conscientizado para não retirar madeira ilegal. Hoje, essa área não é mais de exploração madeireira”, afirmou.
Ruth também atua com turismo de base comunitária na pousada Casa do Caboclo. Segundo ela, a atividade tornou-se fonte de renda para moradores e permite conciliar desenvolvimento econômico com a preservação da identidade cultural da comunidade.
Para Carlos de Carvalho Gonçalves, a permanência das famílias na reserva depende não apenas da conservação ambiental, mas também de condições adequadas de vida, como acesso à renda, transporte, moradia e políticas públicas.
“Não adianta ter a natureza preservada se não houver dignidade para quem vive nela. O legado de Mamirauá é mostrar que conservação da natureza e desenvolvimento das comunidades caminham juntos”, afirmou.
Com informações da Assessoria de Comunicação do Instituto Manirauá*
Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus






