Roteiros personalizados ganham espaço no planejamento de viagens

Pesquisa aponta que 87% dos brasileiros consideram viajar um investimento em qualidade de vida; organização de tempo, orçamento e experiências passa a orientar a escolha dos roteiros

O acesso a informações sobre destinos por redes sociais, plataformas de avaliação e ferramentas de inteligência artificial mudou a forma como brasileiros organizam viagens. Ao mesmo tempo, roteiros personalizados ganham espaço entre turistas que buscam adequar passeios, deslocamentos e gastos aos próprios interesses e ao tempo disponível.

Pesquisa divulgada em agosto pela Booking.com aponta que 87% dos viajantes brasileiros consideram as viagens um investimento em qualidade de vida, enquanto 75% afirmam que viajar proporciona mais satisfação do que comprar bens materiais. Entre pessoas de 45 a 54 anos, o primeiro percentual chega a 93%. Entre viajantes com 55 anos ou mais, fica em 90%.

O tema ganha espaço em setembro, mês do Dia Mundial do Turismo, celebrado no dia 27, e antecede o período de viagens de Natal, Réveillon e férias de verão.

Redes sociais e inteligência artificial mudam planejamento

Instagram, TikTok, avaliações de usuários, influenciadores e ferramentas de inteligência artificial ampliaram a quantidade de informações disponíveis antes de uma viagem. Restaurantes, hotéis, atrações e passeios podem ser pesquisados antes mesmo da definição do roteiro.

Para Meg Getz, especialista em turismo internacional com mais de 40 anos de experiência no setor, reunir recomendações não significa necessariamente ter um roteiro adequado ao tempo e ao orçamento disponíveis.

“Hoje é muito comum a pessoa chegar com 30 ou 40 lugares salvos no celular. Tem o restaurante que viu no Instagram, a atração indicada no TikTok, o passeio recomendado por um amigo e mais uma lista produzida pela inteligência artificial. Tudo parece maravilhoso individualmente. O desafio é transformar essas informações em uma viagem possível”, afirma.

Meg Getz, especialista em turismo internacional com mais de 40 anos de experiência no setor, atua no planejamento de viagens e na criação de roteiros personalizados para brasileiros - Foto: Divulgação
Meg Getz, especialista em turismo internacional com mais de 40 anos de experiência no setor, atua no planejamento de viagens e na criação de roteiros personalizados para brasileiros – Foto: Divulgação

Segundo ela, fatores como distância entre atrações, horários de funcionamento, deslocamentos, duração dos passeios, clima, época do ano e perfil dos viajantes precisam ser considerados na organização.

“Existe uma diferença muito grande entre ter uma lista de lugares que você gostaria de conhecer e ter um roteiro. O roteiro conecta essas escolhas. Ele considera o que fica perto, quanto tempo será gasto no deslocamento, o que realmente vale a pena para aquela pessoa e quanto cabe naquele dia sem transformar as férias em uma maratona”, diz.

Gastronomia entra nas escolhas dos viajantes

A busca por experiências também influencia a definição dos destinos e das atividades. Dados divulgados pela Booking.com em julho de 2026 apontam que 90% dos viajantes brasileiros consideram a culinária local no planejamento das viagens. Pesquisas da plataforma também identificaram interesse dos brasileiros em conhecer novos lugares.

A publicação Tendências do Turismo 2026, elaborada pelo Ministério do Turismo em parceria com Embratur e Braztoa, aponta movimentos ligados à personalização e à curadoria de experiências. O Ministério do Turismo também passou a incluir as chamadas “experiências turísticas memoráveis” em sua estratégia para o desenvolvimento de produtos do setor.

Meg afirma que pontos turísticos continuam fazendo parte dos roteiros, mas passaram a dividir espaço com restaurantes, bairros fora dos circuitos mais procurados, vinícolas, gastronomia e tradições locais.

“Durante muito tempo, viajar significava conhecer os principais cartões-postais de uma cidade. Eles continuam importantes, claro, mas hoje muita gente também quer descobrir um restaurante especial, conhecer um bairro menos turístico, visitar uma vinícola, viver uma experiência gastronômica, acompanhar uma tradição local ou simplesmente ter tempo para aproveitar aquele lugar sem correr”, explica.

Planejamento pode reduzir gastos e deslocamentos

A personalização também pode interferir no custo da viagem. Uma hospedagem com diária menor, por exemplo, pode aumentar as despesas com transporte caso esteja distante das atrações previstas. O mesmo ocorre quando passeios em regiões diferentes são concentrados no mesmo dia.

Ingressos adquiridos sem considerar horários e localização também podem aumentar o tempo de deslocamento e comprometer outras atividades.

“Economizar em uma viagem não significa escolher tudo pelo menor preço. Às vezes, aquilo que parece mais barato isoladamente acaba custando mais quando você olha a viagem inteira”, afirma Meg.

O tempo disponível também entra nessa conta. Em cidades maiores, trajetos entre diferentes regiões podem consumir parte do período reservado para passeios.

“Se você passou meses se organizando e gastou dinheiro para estar naquele lugar durante cinco ou sete dias, perder três horas por dia em deslocamentos desnecessários tem um custo enorme”, acrescenta.

Perfil do viajante muda a organização do roteiro

O mesmo destino pode exigir planejamentos diferentes conforme o perfil de quem viaja. Famílias com crianças, casais, grupos de amigos, pessoas que viajam sozinhas, jovens e viajantes mais velhos podem ter interesses e ritmos distintos.

Questões como disposição para caminhar, horário de início dos passeios, preferência por gastronomia, compras, arte ou natureza e presença de crianças ou idosos interferem na distribuição das atividades.

“Um dos maiores erros é imaginar que existe um roteiro perfeito para determinado destino. Não existe. Existe um roteiro adequado para aquela pessoa, naquela época e naquele momento da vida”, afirma Meg.

Para a especialista, o planejamento deve começar pela identificação desses hábitos e interesses.

“Eu preciso entender quem está viajando. Essa pessoa gosta de caminhar? Quer acordar cedo? Prefere gastronomia, compras, arte ou natureza? Está viajando com crianças ou pessoas mais velhas? Quer conhecer muita coisa ou prefere aproveitar cada lugar com calma? O roteiro começa nessas respostas”, explica.

Curadoria ganha espaço com excesso de informações

Com a quantidade de recomendações disponíveis na internet, profissionais de turismo também passaram a atuar na seleção e organização das informações reunidas pelos próprios viajantes.

Segundo Meg, o objetivo é combinar as preferências do turista com fatores práticos do destino, sem retirar a autonomia de quem está planejando a viagem.

“O profissional experiente não está ali para tirar a autonomia de quem viaja. Pelo contrário. O trabalho é ouvir, entender desejos e transformar tudo isso em uma experiência que faça sentido. É pegar aquele quebra-cabeça de referências e montar uma viagem com a identidade daquela pessoa”, afirma.

A organização tende a ganhar peso com a aproximação de Natal, Réveillon e férias escolares, períodos em que aumenta a procura por viagens de famílias, casais e grupos.

Para Meg, a quantidade de lugares visitados não deve ser o único parâmetro para avaliar uma viagem. “A viagem memorável não é necessariamente aquela em que você conseguiu conhecer vinte lugares em cinco dias. Muitas vezes é justamente aquela em que o roteiro respeitou seu ritmo, permitiu boas escolhas e deixou espaço para viver o destino, em vez de apenas cumprir uma lista”, afirma.

Meg Getz trabalha com turismo internacional há mais de 40 anos. Carioca, viveu por mais de duas décadas em Salvador e atualmente mora nos Estados Unidos, onde atua no planejamento de viagens e na elaboração de roteiros personalizados para brasileiros.

 

 

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus