Venezuela retoma divulgação de dados econômicos após década de sigilo

Banco Central volta a publicar indicadores em meio a mudanças internas, auditorias externas e reaproximação com organismos internacionais
Foto: Reuters

 

A Venezuela voltou a divulgar indicadores econômicos após pelo menos uma década sem publicação regular de dados oficiais. A retomada ocorre em meio a mudanças na condução da política econômica, auditorias externas e reaproximação com organismos internacionais, segundo informações publicadas pelo El País.

Dados atualizados pelo Banco Central da Venezuela indicam que a inflação foi de 32% em janeiro, 14,6% em fevereiro e 13,1% em março de 2026. No acumulado de 12 meses, o índice alcançou 649,5%.

A divulgação encerra um período iniciado em 2016, quando o banco central deixou de publicar estatísticas de forma sistemática durante a crise econômica e o avanço da hiperinflação. Desde então, organismos internacionais e consultorias passaram a estimar os dados, enquanto o governo divulgava informações de forma esporádica.

Mudanças na política econômica e supervisão internacional

A retomada da transparência ocorre em um contexto de reorganização das contas públicas conduzida pelo governo e acompanhada por autoridades dos Estados Unidos. A mudança também coincide com a suspensão, há duas semanas, de sanções aplicadas ao BCV em 2019.

O processo incluiu alterações na direção da instituição. A engenheira Laura Guerra deixou a presidência do banco, que passou a ser comandado interinamente por Luis Pérez González.

Além disso, Venezuela e Estados Unidos contrataram auditorias independentes para supervisionar o uso de recursos financeiros. Segundo comunicado oficial, a medida abrange o monitoramento de operações monetárias, finanças internacionais e atuação no mercado cambial.

“Que os recursos estejam sendo auditados por consultores externos nos dá tranquilidade. O país deve ter plena confiança de que os recursos estão passando por onde devem passar e chegando aonde devem chegar”, afirmou Luis Pérez González. Ele acrescentou que a economia caminha para um período de estabilidade cambial e redução da inflação.

Reaproximação com organismos multilaterais

A nova fase inclui a retomada das relações com instituições como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. A reaproximação ocorre após anos de afastamento e exige maior transparência na divulgação de dados econômicos.

A Venezuela deixou de enviar informações periódicas ao FMI em 2004. Em 2007, durante o governo de Hugo Chávez, representantes do fundo foram expulsos do país e o escritório da instituição foi fechado.

Indicadores apontam dimensão da crise

Dados incorporados ao Banco Mundial mostram a queda do Produto Interno Bruto (PIB) per capita venezuelano. O indicador passou de cerca de US$ 13 mil em 2012 para US$ 4.300 em 2024.

A série histórica indica que a contração econômica começou antes das sanções internacionais. A queda teve início em 2012, ainda no governo Chávez, antes das primeiras sanções individuais aplicadas em 2014 e das medidas mais amplas adotadas em 2017.

Impactos da falta de transparência

Para especialistas, a ausência de dados oficiais ao longo dos anos dificultou a avaliação da economia e ampliou os efeitos da crise.

“A opacidade impede um diagnóstico adequado da economia. Não há ganho em esconder dados”, afirmou Hermez Pérez, professor da Universidade Metropolitana.

Segundo ele, a falta de informações distorce preços, compromete o planejamento empresarial e afeta a credibilidade das instituições.

“A inflação já é um problema grave, e não divulgar os dados não resolve a situação”, disse.

O economista também apontou limitações na condução da política monetária, incluindo a falta de autonomia do banco central.

Perda de autonomia do Banco Central

A perda de independência do BCV teve início durante o governo Chávez, quando o órgão passou a financiar gastos públicos. Mudanças legais ao longo dos anos ampliaram essa prática, com impacto na emissão de moeda e nos níveis de inflação.

Com a retomada da divulgação de dados e a implementação de auditorias externas, o governo busca reorganizar a política econômica e restabelecer mecanismos de acompanhamento das contas públicas.


Com informações do O Globo*

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus