Defensora Pública Caroline Braz detalha projeto “Órfãos do Feminicídio” no programa “De Olho na Cidade”

Iniciativa da Defensoria do Amazonas busca dar visibilidade e proteção a crianças e adolescentes impactados por casos de feminicídio e foi destaque em entrevista na Jovem Pan News Manaus.

A defensora pública Caroline Braz, coordenadora do Núcleo de Proteção e Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem) da Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM), participou nesta quarta-feira do programa “De Olho na Cidade”, apresentado por Tatiana Sobreira e Jackson Nascimento, para falar sobre o projeto “Órfãos do Feminicídio”. A iniciativa busca proteger crianças e adolescentes que perderam suas mães de forma violenta, garantindo direitos básicos como educação, saúde e amparo psicológico.

Invisibilidade e desafios

Durante a entrevista, Caroline Braz explicou os principais desafios enfrentados pelo projeto:

“Os maiores desafios, Jackson, são muitos e começam pela invisibilidade dessas crianças e adolescentes. Durante muito tempo, os órfãos do feminicídio simplesmente não existiam para o Estado. Não havia dados, políticas públicas nem rede estruturada para acolhê-los.”

Ela detalhou que a morosidade dos processos de guarda compromete o acesso das crianças a benefícios e serviços essenciais. Além disso, a falta de equipes psicossociais no interior do Amazonas deixa muitas famílias desassistidas.

“Também enfrentamos a falta de estrutura no interior do estado. Hoje, o nosso núcleo atua em Manaus porque não temos equipes psicossociais suficientes para acompanhar os casos fora da capital.”

Articulação da rede e apoio psicológico

A defensora destacou a necessidade de articulação entre serviços e acompanhamento psicológico contínuo:

“Feminicídio não é só um caso criminal, ele gera consequências sociais, emocionais e econômicas profundas, especialmente para os filhos. São crianças que perderam a mãe de forma violenta e, muitas vezes, também perderam o pai. O trauma é profundo, e o acompanhamento psicológico contínuo é essencial.”

O projeto visa reduzir impactos, dar visibilidade a essas crianças e assegurar que seus direitos sejam respeitados.

“Por isso, o projeto existe: para tentar reduzir esses impactos, dar visibilidade a essas crianças e lutar para que elas tenham seus direitos respeitados e uma chance real de reconstruir suas vidas.”

Pensão especial e atuação judicial

Caroline também comentou sobre a pensão especial para órfãos do feminicídio, que ainda apresenta barreiras:

“O Estado já falhou com a mulher. Agora, não pode falhar de novo com as crianças. Hoje, além da dor, a família ainda precisa enfrentar a burocracia.”

A Defensoria tem atuado junto à Defensoria Pública da União para garantir esse direito na Justiça, buscando alterar critérios de renda e individualizar o benefício.

Acolhimento e transformação

A defensora destacou que a abordagem humanizada do projeto vai além do atendimento jurídico, oferecendo escuta e acolhimento:

Não é assistencialismo. É oportunidade, é reconstrução de trajetórias. Quando uma família diz ‘que bom que vocês acharam a gente, porque a gente não sabia que podia ir até vocês’, isso escancara uma realidade dura: o direito que não chega até a pessoa é um direito que não existe. Por isso a busca ativa é tão essencial.”

Ela ressaltou histórias de superação de jovens órfãos do feminicídio que conseguiram ingressar no ensino superior:

“Esses exemplos traduzem exatamente o sentido do projeto. Quando uma órfã, acolhida em um dos momentos mais difíceis da vida, consegue passar em um estágio, entrar na Defensoria Pública e cursar Direito, isso mostra que o cuidado gera futuro.”

Contexto institucional

O projeto “Órfãos do Feminicídio” já foi apresentado à Casoteca do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que analisa práticas de enfrentamento à violência contra mulheres com potencial de replicabilidade em outros estados. A iniciativa envolve acompanhamento jurídico, psicossocial e garantia de direitos para crianças e adolescentes impactados.

Para Caroline Braz, o projeto mostra que é possível transformar vidas quando o Estado atua com humanidade, compromisso e escuta:

“Falar sobre os órfãos do feminicídio é urgente: para que essas crianças deixem de ser invisíveis e passem a ser vistas, protegidas e cuidadas como a Constituição determina. Avançar é possível, e a Defensoria Pública do Amazonas é prova disso.”

Por Erike Ortteip, da redação da Jovem Pan News Manaus.