Amazônia perde força como ‘máquina de chuva’ e cientistas alertam para impactos no continente

Desmatamento, queimadas e mudanças climáticas já alteram o ciclo de chuvas da Amazônia e podem afetar o abastecimento de água e a produção em diferentes regiões da América do Sul.

A Amazônia exerce papel central na distribuição de água pela América do Sul por meio de um sistema conhecido como “rios voadores”. A floresta absorve água do solo e libera grandes volumes de vapor para a atmosfera, que são transportados pelos ventos e contribuem para a formação de chuvas em diferentes áreas do continente.

Pesquisadoras que estudam o bioma alertam que o avanço do desmatamento, das queimadas e de outras atividades está afetando esse mecanismo e pode comprometer o funcionamento do sistema de chuvas.

Árvores ajudam a transportar água para a atmosfera

Segundo a pesquisadora Julia Valentim Tavares, a Amazônia representa uma das principais infraestruturas hídricas da América do Sul e funciona como uma grande “máquina de chuva”.

Uma árvore adulta da região pode liberar entre 200 e 300 litros de água por dia para a atmosfera. Em escala continental, a combinação desse processo com a circulação dos ventos contribui para transportar umidade da floresta para outras regiões.

Esse fenômeno é conhecido como rios voadores, expressão usada por cientistas para descrever os grandes volumes de vapor d’água transportados pela atmosfera.

Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia, afirma que a floresta está diretamente ligada aos ciclos de água, nutrientes e carbono em escalas local, regional e global.

As pesquisadoras participaram da última edição do TEDxAmazonia, realizada no fim de agosto, no Equador.

Desmatamento altera o ciclo de chuvas

As cientistas alertam que atividades como mineração, narcotráfico, desmatamento e queimadas afetam a conectividade entre os diferentes ecossistemas da Amazônia.

Segundo Marielos, a floresta é formada por uma rede de ambientes terrestres e aquáticos interligados, que também mantém relação direta com as comunidades que vivem na região.

Estudos citados pela pesquisadora apontam que os efeitos sobre o clima já podem ser observados. Entre eles está a redução das chuvas em áreas do Brasil e da Bolívia associada ao desmatamento na Amazônia brasileira.

Em regiões desmatadas, também foram registrados aumento das temperaturas e períodos de seca mais intensos e prolongados.

Árvores enfrentam maior estresse durante períodos de seca

Julia Valentim Tavares pesquisa os efeitos das mudanças climáticas no interior das árvores localizadas na borda sul da Amazônia, região conhecida como arco do desmatamento.

Segundo a pesquisadora, a área registrou redução no volume de chuvas e aumento das temperaturas na última década. O estudo busca entender por quanto tempo as árvores conseguem resistir às condições de seca antes de sofrer danos em seu sistema hidráulico.

A falta de água no solo aumenta a tensão no sistema responsável pelo transporte de água dentro da árvore. Quando esse processo se repete em diferentes partes da planta, o risco de mortalidade aumenta.

Seca de 2024 expôs impactos fora da Amazônia

A região amazônica também tem sido afetada pelo aquecimento global e por eventos climáticos extremos.

Em 2024, a Amazônia enfrentou uma das secas mais severas já registradas, associada ao El Niño, fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico e por alterações na circulação atmosférica.

Segundo Marielos, 88% da bacia amazônica foi afetada pela seca. Os impactos ultrapassaram os limites da floresta e atingiram outras áreas da América do Sul.

Bogotá, capital da Colômbia, enfrentou problemas de abastecimento de água. Em Quito, no Equador, a redução da disponibilidade hídrica também afetou o fornecimento de energia elétrica.

Queimadas aumentam os impactos sobre a floresta

A estiagem de 2024 também deixou a vegetação mais vulnerável às queimadas. Naquele ano, os incêndios atingiram grandes áreas da Amazônia e a fumaça foi transportada para outras regiões do país.

Para as pesquisadoras, o episódio mostrou que os efeitos das mudanças na Amazônia não ficam restritos ao bioma. A alteração no regime de chuvas, o aumento das temperaturas e a propagação da fumaça podem atingir cidades e atividades econômicas distantes da floresta.

Possibilidade de novo El Niño preocupa pesquisadores

A possibilidade de ocorrência de um super El Niño voltou a chamar a atenção das pesquisadoras. Períodos prolongados de seca podem aumentar a mortalidade de árvores, reduzir o crescimento da floresta e favorecer novos incêndios.

Julia Valentim Tavares explica que, diante de eventos extremos, a Amazônia pode perder parte de sua capacidade de absorver carbono e passar a liberar mais carbono para a atmosfera, contribuindo para o aquecimento global.

Segundo Marielos, um novo período de seca intensa pode apresentar desafios diferentes dos observados anteriormente, diante das mudanças já registradas no bioma.

Redução de emissões e recuperação de áreas são apontadas como medidas

Para as pesquisadoras, a redução das emissões de gases de efeito estufa é uma das principais medidas para enfrentar o problema. Isso inclui a diminuição da utilização de combustíveis fósseis e a ampliação de fontes de energia menos poluentes.

Outra frente apontada é a recuperação de áreas degradadas e a restauração da conectividade entre os diferentes ecossistemas amazônicos.

A preservação da floresta está diretamente relacionada à manutenção dos ciclos de água, carbono e nutrientes e aos efeitos desses processos sobre outras regiões da América do Sul.