“A nossa moda questiona a sociedade”: looks de Gkay colocam criação indígena e amazônica em destaque

Influenciadora chegou a Manaus usando peças de artistas locais e ampliou a visibilidade de marcas que unem ancestralidade, sustentabilidade e identidade regional

A influenciadora Gkay chamou atenção nas redes sociais ao desembarcar em Manaus usando produções assinadas por artistas locais. A publicação, feita antes de sua participação no “Festival da Cunhã”, destacou peças inspiradas na cultura amazônica, com uso de artesanato indígena, palha, sementes e grafismos regionais.

“Bom dia, Manaus. Todos os looks que estou usando são de artistas locais, espero que amem”, escreveu a influenciadora nas redes sociais.

Moda indígena ganha vitrine nacional

A escolha dos looks repercutiu entre internautas e deu visibilidade nacional ao trabalho de estilistas, artesãos e marcas autorais da região. A proposta também reforça o crescimento da moda amazônica, que une ancestralidade, sustentabilidade e economia criativa.

Em uma das produções, Gkay apostou no conceito de “Amazônia Futurista”, com referências ao surrealismo afro-indígena brasiliano. A composição trazia grafismos indígenas, tramas artesanais feitas por artesãos amazonenses e sementes aplicadas à peça.

Ateliê no Parque das Tribos fortalece criação local

Em Manaus, o Ateliê Derequine, localizado no Parque das Tribos, primeiro bairro indígena reconhecido na capital amazonense, atua com produção artesanal e sustentável de estilistas indígenas dos povos Witoto, Mura e Dessana.

Desde 2015, a liderança indígena Vanda Ortega Witoto trabalha com a irmã, Sandy Witoto, no estudo da cultura do povo Witoto por meio dos grafismos, da relação com o território e das vivências de mulheres originárias de Amaturá, no interior do Amazonas.

As peças do ateliê são inspiradas na valorização da cultura indígena e na conexão com a Aldeia Colônia, território de origem da família. A técnica da costura foi ensinada por Leia Witoto, matriarca da família.

Foto: @ateliederequine e by.pedrofurtado

Grafismos carregam memória e espiritualidade

Da história do povo Witoto, originário da região do Alto Rio Solimões, surgem roupas ligadas a rituais sagrados, espiritualidade e símbolos de proteção.

“Usamos o simbolismo dos animais como a cobra, por exemplo, que é um elemento sagrado de proteção de cura. Para as pinturas nos tecidos trazemos essas inspirações da nossa própria identidade”, disse Vanda Witoto, em entrevista à Amazônia Real.

Para ela, a moda indígena sempre existiu nos territórios, mas só recentemente passou a ocupar espaços de passarela e do mercado tradicional.

“A nossa moda questiona a sociedade e problematiza o que nós estamos vivenciando enquanto povos indígenas. A nossa vestimenta é carregada por nossa identidade, por nossa memória, por nossas lutas e é sempre baseada na nossa ancestralidade”, afirmou.

Produção segue o “tempo da natureza”

Na contramão da produção em larga escala, o Ateliê Derequine trabalha com produção artesanal e sustentável. Segundo Vanda, o processo é feito no “tempo da natureza”.

Entre os materiais usados estão fibras naturais, como o tucum, além de sementes adquiridas de artesãs de Manaus. O tucum utilizado pelo ateliê vem de mulheres Tikuna da comunidade Belém do Solimões, na Terra Indígena Eware, em Tabatinga.

“A gente compra e utiliza as matérias-primas que as parentas trazem. Então, a gente também fomenta muito o nosso território quando compra essas sementes”, destacou Vanda.

Projeto gera renda e amplia presença indígena

O Ateliê Derequine já participou de desfiles de moda, contribuiu para figurinos de programas de televisão e se expandiu para outros municípios do Amazonas. O projeto também fortalece a independência financeira de mulheres indígenas no Parque das Tribos.

Apesar do crescimento, o ateliê ainda busca um espaço próprio para ampliar a produção e receber novas atividades. O projeto foi contemplado pelo Podáali – Fundo Indígena da Amazônia Brasileira, e também pelo programa Lab de Impacto, do Impact Hub Manaus.

Moda como ferramenta de identidade

Para Vanda Witoto, o ateliê é mais do que um espaço de produção de roupas. As peças são uma forma de comunicar existência, memória e luta dos povos indígenas.

“Nossas peças se tratam de uma linguagem que reivindica a ocupação de espaços, e sobretudo a contação da nossa história. Contar sobre nós também nos permite tirar nosso fim e essas peças refazem nossa história”, afirmou.

Gkay veio a Manaus a convite da ex-BBB Isabelle Nogueira para prestigiar o “Festival da Cunhã”, marcado para este sábado, 23, na Arena da Amazônia. Com a repercussão, artistas locais ganharam vitrine fora do Amazonas e reforçaram um movimento que já vem crescendo na região: a moda como expressão de identidade, sustentabilidade e valorização da cultura amazônica.

Com Informações do Instagram e Amazônia Real

Por João Paulo Oliveira, da redação da Jovem Pan News Manaus