Bets movimentaram R$ 351 bilhões via Pix e ampliaram casos de endividamento e dependência

Famílias perderam R$ 62,5 bilhões para apostas em 2025, enquanto serviços de saúde passaram a atender casos de dependência, dívidas e risco de suicídio relacionados aos jogos

A expansão das apostas on-line no Brasil deixou um rastro de endividamento, dependência e problemas de saúde entre apostadores. Somente em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets, considerando a diferença entre os valores apostados e o dinheiro devolvido em prêmios.

Entre outubro de 2024 e março de 2026, a perda média foi de R$ 4,7 bilhões por mês e correspondeu a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias. No período, as casas de apostas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações via Pix. Os números foram divulgados pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) no Boletim Fiscal dos Estados.

Os impactos voltaram ao centro do debate após a publicação, na sexta-feira (25), da Medida Provisória 1.394, que proibiu as operações das empresas de apostas on-line no país.

Dívidas levaram apostadores a procurar tratamento

Kaio*, de 42 anos, é um dos brasileiros que procuraram atendimento depois de acumular prejuízos com apostas. Ele relata ter perdido a casa, o carro e o emprego por causa das dívidas contraídas ao longo de seis anos.

Atualmente, mora sozinho em um dormitório em uma cidade do interior de Goiás e dorme no chão. Ele decidiu se afastar da família por temer pela segurança dos parentes diante de dívidas contraídas com agiotas.

Neste ano, procurou atendimento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde participa de grupos terapêuticos e consultas médicas. Também utiliza três medicamentos diariamente.

Ao saber da proibição das bets, definiu a decisão como “um grande alívio”.

Bets foram autorizadas em 2018 e regulamentadas em 2023

As apostas de quota fixa foram autorizadas pela Lei 13.756, de dezembro de 2018, aprovada no último mês do governo de Michel Temer. A regulamentação, no entanto, ocorreu somente em dezembro de 2023.

Nesse intervalo de aproximadamente cinco anos, as plataformas funcionaram sem parte das regras que posteriormente passaram a disciplinar a atividade.

A regulamentação estabeleceu, entre outras medidas, a obrigação de apresentar avisos de desestímulo às apostas e advertências sobre os riscos associados aos jogos.

A Medida Provisória 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (25), revogou o capítulo da legislação de 2018 que tratava das apostas de quota fixa.

Especialistas apontam impacto sobre pessoas vulneráveis

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que pessoas em situação de vulnerabilidade estão entre as mais suscetíveis ao desenvolvimento de dependência.

Segundo a médica, parte da publicidade apresentava as apostas como uma possibilidade de complementar a renda.

“São pessoas que querem retornos rápidos induzidas a acreditar que podem ter isso com as bets. Isso se tornou realmente muito perigoso.”

A legislação também previa o bloqueio do acesso de usuários identificados como jogadores compulsivos. O advogado Júlio Leone afirmou à Agência Brasil, em agosto, que a medida não era aplicada como previsto e que jogadores continuavam recebendo bônus e publicidade.

“É aí que ela perde todo o capital”, afirmou.

Kaio relata ter enfrentado a mesma situação durante o período em que apostava.

“O celular não parava de trazer mensagens.”

Um em cada cinco estudantes já fez apostas on-line

Os efeitos das apostas também chegaram aos adolescentes. Pesquisa realizada a pedido da Frente Parlamentar Mista da Educação pela Equidade.info ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas do país.

O levantamento mostrou que 20,4% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio disseram ter feito apostas on-line no último ano.

Os primeiros contatos com os jogos também aparecem entre crianças de 11 anos. Nessa faixa etária, 9,5% dos estudantes entrevistados disseram já ter apostado.

A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que adolescentes estão mais expostos aos efeitos das apostas porque as regiões cerebrais responsáveis pelo controle dos impulsos e pela avaliação dos riscos continuam em desenvolvimento até depois dos 20 anos.

“O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte.”

O sistema relacionado à sensação de prazer e à liberação de dopamina, segundo os especialistas, atua antes da conclusão desse processo de amadurecimento.

Dependência pode estar associada a risco de suicídio

Profissionais de saúde identificaram entre apostadores sinais como desesperança, isolamento, aumento do consumo de álcool e mudanças de comportamento.

Katia Branco afirma que manifestações relacionadas à morte ou à vontade de não continuar vivendo precisam ser tratadas durante o acompanhamento médico e psicológico.

“A ideação suicida deve ser tratada de forma mais aberta tanto no consultório quanto nos grupos terapêuticos. Com manejo adequado, podemos reduzir o risco e tentar ajudar os pacientes.”

Segundo a psiquiatra, prejuízos financeiros também aparecem associados a quadros de ansiedade e pensamentos de morte.

“Há quem tenha pensamentos de morte e, no caso, os mais graves já com a ideação suicida em virtude dos prejuízos financeiros que têm.”

Especialistas orientam procura por atendimento

O neurocirurgião Orlando Maia explica que a dependência está relacionada à busca pelo mecanismo de recompensa provocado pelas apostas. Em alguns casos, o próprio jogador não reconhece o problema.

“Precisam de pessoas da família ou de amigos que possam ajudar.”

A psicóloga Claudia Feres, que trabalha em um Caps no Distrito Federal, recomenda que apostadores e familiares procurem atendimento profissional quando houver sinais de dependência.

“Eu trabalho em Caps. Chegam para nós pessoas que tiveram pensamentos e fizeram, por exemplo, tentativa de autoextermínio. É um pedido de socorro desesperado, como se falasse que precisa se ausentar da vida naquele momento.”

Para a psicóloga, o enfrentamento não deve ficar restrito à responsabilidade individual do apostador.

“A solução tem que ser no âmbito coletivo também.”

Especialistas apontam que a disponibilidade das plataformas durante praticamente 24 horas por dia contribuiu para ampliar o acesso às apostas.

Luiz Carlos*, de 71 anos, integrante dos Jogadores Anônimos, comparou o acesso pelo celular à presença permanente de um local de apostas.

“É um cassino dentro do seu bolso.”

Ele afirmou à Rádio Nacional, antes da proibição das plataformas, que a facilidade de acesso mudou a relação dos jogadores com as apostas.

“Na minha época, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje não precisa mais.”

SUS ampliou atendimento para dependência em apostas

Diante do aumento da procura por tratamento, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou, em agosto, o número de teleatendimentos mensais destinados a pessoas com problemas relacionados às apostas on-line.

Após o anúncio da proibição das bets, o Ministério da Saúde informou que pretende ampliar a identificação e o contato com apostadores frequentes para oferecer acompanhamento e tratamento quando necessário.

Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a estratégia prevê busca ativa a partir de informações compartilhadas pelos ministérios da Fazenda e da Segurança e pela Receita Federal.

A Agência Brasil acompanha o impacto das apostas sobre endividamento, saúde e dependência e mantém uma série de reportagens sobre o tema.

*Os nomes dos apostadores foram preservados na reportagem original.

 

Com informações da Agência Brasil

Por Haliandro Furtado, da redação da Jovem Pan News Manaus