Eleitores indígenas que deixaram comunidades do Vale do Javari para participar do segundo turno das Eleições 2026 enfrentam dificuldades para chegar a Atalaia do Norte, no interior do Amazonas, e permanecer no município durante a votação deste domingo (25). Entre os problemas relatados estão a falta de alimentação, a escassez de combustível e os obstáculos à navegação provocados pela estiagem.
Abrão Mayoruna, representante indígena que está na cidade, criticou a falta de planejamento e afirmou que parte dos eleitores chegou no sábado (24) sem receber assistência para alimentação. Segundo ele, havia uma tentativa de contato com a prefeitura para buscar apoio, mas ainda não havia resposta.
“O único problema que estamos enfrentando agora é a questão da alimentação. Os parentes chegaram desde ontem, portanto, eles não receberam suporte de alimentação”, afirmou.
Deslocamento e permanência na cidade
As dificuldades não se limitam à alimentação. Segundo Marcelo Kulina, moradores de uma aldeia do povo Kulina não conseguiram seguir para a sede municipal porque o combustível chegou muito próximo do horário da votação. A comunidade fica distante de Atalaia do Norte.
Eleitores do povo Kanamary também relataram problemas para chegar ao município. Conforme os relatos, a quantidade de gasolina disponível não seria suficiente para realizar o trajeto em embarcações.
A estiagem agrava a situação ao reduzir o nível dos rios e dificultar a navegação na região, aumentando os obstáculos para quem precisa sair das comunidades para votar.
Abrão Mayoruna afirmou que alguns indígenas precisam permanecer de três a cinco dias na cidade e arcar com despesas durante esse período, incluindo alimentação. Para ele, a situação revela a necessidade de melhorar a organização e o atendimento aos eleitores indígenas.
“Falta de compromisso mesmo. Falta de compromisso com a gente, a população de ribeirinhos e indígenas”, declarou.
O representante defendeu que os próximos pleitos contem com planejamento antecipado e melhores condições de transporte e assistência para quem precisa percorrer longas distâncias até os locais de votação.
Prefeitura diz que apoio era para o transporte
Em nota, a Prefeitura de Atalaia do Norte informou que, durante reunião com a Justiça Eleitoral, ficou acordado que o município auxiliaria no transporte dos indígenas por meio do fornecimento de combustível para o deslocamento até a sede municipal e as seções eleitorais.
Sobre o fornecimento de água e alimentação, a administração afirmou que não houve determinação da Justiça Eleitoral para que a prefeitura disponibilizasse os itens. Segundo o município, essa responsabilidade cabe à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
A prefeitura também declarou que aguarda solicitações formais das instituições para prestar o apoio necessário, desde que haja tempo hábil para organizar o atendimento.
Polêmica sobre transporte chegou à Justiça Eleitoral
As reclamações ocorrem após uma controvérsia envolvendo a logística para o segundo turno. Inicialmente, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) afirmou que o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) havia negado um pedido de apoio logístico para eleitores de mais de 40 aldeias.
Posteriormente, a organização se retratou. Na quarta-feira (21), o coordenador executivo da Univaja, Jaime da Silva Mayuruna, pediu desculpas à juíza Dálethe Borges Messias, da 42ª Zona Eleitoral do Amazonas.
No documento, Jaime afirmou que a direção da entidade desconhecia o conteúdo do ofício anterior e não havia autorizado seu envio. Ele classificou a conduta como um ato isolado, contrário aos procedimentos internos da organização, e informou ter determinado a abertura de um procedimento administrativo para apurar a responsabilidade do procurador jurídico envolvido.
O TRE-AM havia informado que a solicitação de apoio foi apresentada fora do prazo.
Reunião discutiu medidas para o pleito
Também na quarta-feira, representantes da Justiça Eleitoral, do Ministério Público Eleitoral, da Prefeitura de Atalaia do Norte, da Univaja, de organizações indígenas e da Funai se reuniram na Câmara Municipal para discutir o transporte dos eleitores.
Durante o encontro, um representante da Univaja afirmou que todas as aldeias, em todas as calhas de rio, haviam sido atendidas e que as questões relacionadas ao combustível e ao apoio logístico estavam resolvidas.
Apesar disso, os relatos feitos neste domingo apontam dificuldades enfrentadas por parte dos eleitores para chegar ao município e garantir condições de permanência durante o período de votação.
Com informações do G1 Amazonas*
Por Victoria Medeiros, da Jovem Pan News Manaus
Foto: Reprodução/DPE-AM






