Exclusiva: Abril Azul e o desafio da inclusão no Brasil: diagnóstico, acolhimento e informação

Conscientização sobre o autismo avança, mas especialistas alertam para desafios na rede de apoio e no diagnóstico precoce

O mês de abril é marcado pela campanha Abril Azul, movimento mundial de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), que busca ampliar o debate sobre diagnóstico precoce, inclusão social e acesso a tratamentos especializados. A iniciativa coloca em pauta a realidade de milhões de famílias que convivem diariamente com o autismo e ainda enfrentam desafios como preconceito, falta de informação e sobrecarga no sistema de saúde.

Para aprofundar essa discussão, o programa Minuto a Minuto, da Jovem Pan News Manaus, recebeu a psicóloga Julia Amed, que explicou os principais sinais do TEA, a importância da participação familiar no tratamento e os gargalos da rede de atendimento no país.

Logo no início da entrevista, Julia reforça que falar sobre autismo vai além de uma campanha sazonal trata-se de uma necessidade permanente de conscientização.

A importância da gente falar sobre autismo é que a gente precisa ter consciência de que ele existe, de que pessoas autistas existem, de que elas têm necessidades e vontades. A gente precisa falar sobre isso todos os dias. Todo mês é mês de conscientização. Precisamos falar sobre sinais, intervenções e levar informação para quem precisa”, destacou.

A psicóloga também destaca que a informação não deve ser restrita às famílias diretamente envolvidas, mas alcançada por toda a sociedade.

Saber sobre o autismo é um serviço público. Todo mundo precisa entender o que significa. Quanto mais a gente fala, mais a gente reduz preconceito e mais cedo conseguimos ajudar essas crianças”, disse.

Diagnóstico precoce e sinais de atenção

Durante a conversa, Julia Amed detalhou os principais sinais que podem indicar o TEA ainda na primeira infância, reforçando a importância da observação familiar e do acompanhamento médico.

Segundo ela, o diagnóstico envolve especialmente três áreas: comunicação, interação social e comportamentos repetitivos.

Os sinais envolvem atraso de comunicação, dificuldade de interação social e padrões de comportamento restritos e repetitivos. Às vezes a criança brinca sempre da mesma forma, organiza objetos, ou tem foco muito específico em determinadas coisas”, afirmou.

A psicóloga também alerta que, em alguns casos, sinais podem ser percebidos muito cedo.

Estudos recentes já mostram identificação de sinais de autismo até os seis meses de idade. Crianças que não fazem contato visual, não respondem a estímulos ou não reagem ao próprio nome já podem ser acompanhadas com mais atenção”, ressaltou.

O papel da família no tratamento

Um dos pontos centrais da entrevista foi o envolvimento dos pais e cuidadores no processo terapêutico, considerado essencial pela especialista.

A gente não tem intervenção sem presença de pais, mães e cuidadores. A criança não vive só na clínica. Se o que é trabalhado não for reproduzido em casa e na escola, ela não generaliza habilidades”, reforçou.

Julia reforça ainda a necessidade de estratégias práticas e possíveis dentro da rotina familiar.

Não adianta um plano lindo e complexo se os pais não conseguem executar em casa. A intervenção precisa ser funcional e adaptada à realidade da família”, destacou.

Caminhos após o diagnóstico

Ao abordar o processo após a confirmação do TEA, a psicóloga explica que o acompanhamento deve ser multidisciplinar e individualizado.

A recomendação é sempre buscar intervenção. Pode envolver psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e, em alguns casos, acompanhamento médico. Não existe um único modelo, cada caso é único”, frisou.

Ela também reforça a importância de não tratar o diagnóstico como um ponto final, mas como início de um processo de desenvolvimento.

Sistema sobrecarregado e necessidade de ampliação

Julia também chama atenção para o crescimento da demanda por atendimento especializado no Brasil.

O nosso serviço está saturado. A demanda é muito grande e talvez não tenhamos profissionais suficientes para atender todas essas pessoas”, evidenciou.

Para ela, campanhas como o Abril Azul são fundamentais não apenas para conscientização, mas também para estimular formação profissional na área.

A gente precisa falar mais sobre isso para que mais pessoas estudem e atuem na área. A demanda não vai diminuir,” salientou.

Inclusão ainda é desafio no país

Na avaliação da psicóloga, apesar dos avanços legais e sociais, o Brasil ainda enfrenta dificuldades estruturais no atendimento às pessoas autistas, especialmente na educação e no acesso a serviços públicos.

Ainda temos muito a avançar. Falta estrutura, falta preparo em escolas e falta profissionais capacitados para lidar com a complexidade do espectro”, evidenciou.

Informação como ferramenta de transformação

Ao final da entrevista, Julia Amed reforça que o principal caminho para inclusão começa pela informação e pela escuta.

Não tenha receio de falar sobre autismo, de buscar ajuda e de procurar profissionais. Quanto mais informação, mais inclusão. E isso faz diferença na vida das famílias”, finalizou.