Quais são os riscos de o ebola chegar ao Brasil?

Avanço do surto na África colocou dez países em alerta máximo enquanto cientistas britânicos aceleram desenvolvimento de vacina experimental

O avanço do surto de ebola na África voltou a acender o alerta internacional sobre a possibilidade de disseminação da doença para outros países, incluindo o Brasil. O aumento de casos na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda levou autoridades sanitárias africanas a classificarem dez países do continente como áreas de alto risco para transmissão do vírus.

Apesar do cenário de preocupação, especialistas afirmam que a possibilidade de o ebola chegar ao Brasil continua sendo considerada baixa. O principal risco estaria ligado à entrada de casos importados por meio de viagens internacionais, especialmente em aeroportos com grande circulação de passageiros vindos de regiões afetadas.

Segundo o infectologista David Salomão Lewi, do Einstein Hospital Israelita, o vírus possui uma forma de transmissão diferente da registrada em pandemias respiratórias, como a Covid-19.

“Diferente de vírus respiratórios, como o da Covid-19, o ebola não se espalha pelo ar. Ele depende de contato direto com secreções de pessoas doentes, geralmente já em ambiente hospitalar”, explica.

Especialistas apontam que, para o vírus chegar ao Brasil, seria necessário que uma pessoa infectada desembarcasse no país já apresentando sintomas. Por isso, o monitoramento de viajantes e o reforço da vigilância epidemiológica em aeroportos são considerados fundamentais.

“O Brasil está preparado para isolar pacientes, usar equipamentos de proteção e evitar a transmissão dentro dos serviços de saúde”, afirma Lewi.

A infectologista Carla Kobayashi, do Hospital Sírio-Libanês, destaca que o momento exige atenção, mas não há indicação de restrições internacionais de viagens.

“Não há indicação de restrição de viagens, mas sim de vigilância ativa. O foco é identificar rapidamente qualquer caso suspeito e agir antes que haja transmissão”, ressalta.

África vive avanço do surto

O alerta internacional ganhou força após o Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África (CDC Africa) informar que dez países africanos estão sob alto risco de disseminação da doença.

Entraram na lista:

  • Sudão do Sul
  • Ruanda
  • Quênia
  • Zâmbia
  • República Centro-Africana
  • Tanzânia
  • Etiópia
  • Angola
  • Congo
  • Burundi

Segundo o presidente do CDC Africa, Jean Kaseya, a preocupação envolve fatores como fronteiras vulneráveis, circulação intensa entre países e rotas comerciais que dificultam o monitoramento de casos suspeitos.

Os demais países do continente foram classificados como áreas com possibilidade de registrar casos importados.

Congo e Uganda concentram avanço do surto

A situação mais preocupante está atualmente na República Democrática do Congo e em Uganda, países que concentram o avanço recente do ebola no continente africano. Na sexta-feira (23), a Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou de “alto” para “muito alto” o nível de risco relacionado ao surto no Congo.

“O surto de ebola da República Democrática do Congo está se espalhando rápido”, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Até o momento, a OMS contabiliza 82 casos confirmados e sete mortes confirmadas por ebola no Congo. No entanto, a entidade afirma que o cenário pode ser maior, com quase 750 casos suspeitos e 177 mortes suspeitas em investigação.

Em Uganda, o Ministério da Saúde confirmou mais três casos da doença neste sábado (23), incluindo um profissional de saúde, um motorista e uma mulher congolesa que esteve recentemente na província de Ituri, no Congo. Com isso, o país chegou a cinco casos confirmados.

O atual surto envolve a variante Bundibugyo, considerada rara e ainda sem vacina validada ou tratamento específico aprovado. Estimativas indicam que a cepa pode matar entre 30% e 40% dos infectados.

Cientistas aceleram vacina experimental

Em meio ao avanço da doença, cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, trabalham no desenvolvimento de uma vacina experimental contra a variante Bundibugyo do ebola. Segundo os pesquisadores, o imunizante pode ficar pronto para testes clínicos dentro de dois a três meses.

A vacina utiliza a mesma tecnologia aplicada durante a pandemia da Covid-19, conhecida como ChAdOx1, considerada altamente adaptável para diferentes infecções.

Desta vez, os cientistas utilizaram material genético da variante Bundibugyo para ensinar o organismo a reconhecer e combater o vírus sem provocar a doença.

Os testes em animais já estão em andamento em Oxford. Assim que a fórmula estiver pronta em padrão farmacêutico, o Serum Institute da Índia deve iniciar a produção em larga escala.

“Assim que entregarmos o material inicial, eles poderão produzir rapidamente e em grande escala”, afirmou à BBC News a professora Teresa Lambe, diretora de imunologia de vacinas do Oxford Vaccine Group.

Apesar da expectativa, ainda não existe comprovação de eficácia do imunizante. Antes de qualquer liberação, a vacina precisará passar por testes clínicos em humanos.

Doença continua sendo grave

Mesmo com uma taxa de mortalidade menor do que a observada em surtos anteriores, o ebola continua sendo considerado uma doença altamente grave. Os sintomas iniciais incluem febre, dor de cabeça, cansaço e dores no corpo. Em quadros mais graves, pacientes podem apresentar vômitos, diarreia, hemorragias e falência de órgãos.

Sem tratamento específico aprovado para a variante Bundibugyo, o atendimento médico é baseado em suporte clínico, hidratação intensiva e controle dos sintomas. Especialistas reforçam que o diagnóstico precoce aumenta as chances de sobrevivência.

Com informações Agência Brasil/ Metrópoles
Foto: Arlette Bashiz
Por Ismael Oliveira – Redação Jovem Pan News Manaus