O comprimido que mudou o câncer de pâncreas e quase dobrou a sobrevida de pacientes

Droga oral atinge alvo considerado inalcançável há décadas e mostra avanço inédito contra um dos cânceres mais letais.

Durante décadas, o câncer de pâncreas foi um dos cenários mais difíceis da oncologia mundial, com poucas respostas além da quimioterapia e uma taxa de sobrevida extremamente baixa. Agora, um comprimido tomado uma vez ao dia reacende a discussão sobre um dos alvos mais resistentes da medicina: o gene RAS, presente em mais de 90% dos casos da doença.

O avanço foi anunciado após resultados de um ensaio clínico de fase 3 com o medicamento daraxonrasib, que quase dobrou a sobrevida de pacientes em estágio avançado. No estudo, pessoas que já não tinham outras opções viveram em média 13,2 meses com a nova droga, contra 6,7 meses no grupo que recebeu quimioterapia padrão.

Por décadas, esse resultado parecia improvável. O RAS, responsável por controlar o crescimento celular, quando sofre mutação, trava em estado de ativação permanente e faz as células tumorais se multiplicarem sem controle. A dificuldade de atingir essa proteína fez com que ela fosse classificada como “intratável” pela ciência.

Um alvo considerado impossível

Pesquisadores tentaram por anos bloquear o RAS sem sucesso. O problema está na própria estrutura da proteína, que não oferece um ponto claro de ligação para medicamentos. A comparação usada por especialistas é a de uma fechadura polida demais, sem encaixe para a chave.

O câncer de pâncreas agrava ainda mais esse desafio. Em cerca de 80% dos casos, o diagnóstico já ocorre em estágio avançado ou metastático, quando as opções terapêuticas são limitadas e a sobrevida média não passa de alguns meses após a falha da primeira linha de tratamento.

O estudo e os resultados

O ensaio clínico RASolute 302 envolveu cerca de 500 pacientes divididos em dois grupos. Um recebeu o daraxonrasib em comprimido diário e o outro seguiu com quimioterapia intravenosa.

Os resultados mostraram redução de 60% no risco de morte no grupo que usou a nova droga. Cerca de um terço dos pacientes teve redução do tumor, enquanto 80% apresentaram estabilização ou resposta à doença.

Segundo especialistas que acompanharam o estudo, o impacto não está apenas na sobrevida, mas na mudança de paradigma. Pela primeira vez, um inibidor de amplo espectro conseguiu atuar sobre múltiplas mutações do RAS ao mesmo tempo.

O que muda daqui para frente

O daraxonrasib ainda não tem aprovação definitiva nos Estados Unidos, mas recebeu status de terapia inovadora pela agência reguladora, o que acelera sua análise. Também já pode ser usado em caráter compassional em alguns casos.

No Brasil, o medicamento ainda depende de aprovação da Anvisa e de etapas regulatórias para chegar ao sistema de saúde. O custo estimado de terapias oncológicas desse tipo pode chegar a cerca de R$ 50 mil por mês.

Mesmo com os resultados promissores, especialistas alertam que ainda não há cura para o câncer de pâncreas. Os estudos continuam para avaliar uso em fases mais iniciais da doença e possíveis combinações com outros tratamentos.

Com Informações do G1
Foto: Reprodução
Por Ismael Oliveira – Redação Jovem Pan News Manaus